Exmo. Dr. Álvaro Amaro,
A partir das últimas revelações públicas sobre futuras intervenções urbanas a operar na Guarda e o seu modo de atuação no contexto urbano não posso deixar de referir o seguinte:
1. Gostaria que pudesse explicitar o alcance da medida: “cobertura a instalar na Rua do Comércio por meio de uma estrutura com apoio ao pavimento e policarbonato compacto” independentemente de justificar o investimento a partir de uma comparticipação de 85% de dinheiros comunitários.
2. Do que veio a público parece que vão dar oportunidade aos guardenses de se exprimirem sobre se concordam em que circule ou não o veículo automóvel na Rua do Comércio. Não deixa de ser estranho que essa consulta automobilística se faça após instalação da dita estrutura de cobrir não sei o quê…
3. Estranho também que este tipo de ideias avulsas a somar às zonas aferidas no concurso público do Eixo Central Urbano, pois não houve tempo de pensar, de amadurecer uma solução que possa dar corpo a uma estrutura de comércio mais apetecível, com capacidade de atração ao mesmo tempo que o espaço público e a sua arquitetura possa por si só ser atrativo e de vivência.
4. Bastará pois dar alguns exemplos de soluções de coberturas abrangentes e de grande eficácia simbólica e funcional, como seja o exemplo construído da “Metropol Parasol”, em Sevilha, solução escolhida em concurso público para a cobertura da Plaza de La Encarnación. Curiosamente não é uma cobertura para a intempérie mas com função de protecão solar e muito menos pensada diretamente para os lojistas da Plaza! Outra questão importante é saber o impacto visual e físico desta extensa cobertura em relação às partes dos edifícios acima da instalação da cobertura. Pois se eu tivesse um imóvel nesta artéria não gostaria de ter junto às minhas janelas uma estrutura de policarbonato compacto. Para além de que face ao tipo de cota que a estrutura parece ter a partir das visualizações 3D se poderá verificar o efeito de aumento da velocidade do vento a partir do desenho da cobertura.
5. Importa então aferir soluções concretas que promovam o comércio tradicional e não dar conforto a hipotéticos consumidores.
6. Curiosamente iniciou um processo de motivação e captação de investimento e de relações comerciais com feiras, festas e eventos, pelo que poderá haver nesta política um meio ou forma de potenciar novas vivências e formas de captação de público, em concreto uma plataforma de envolvimento dos comerciantes e de empresas. Não vejo,
7. que a cobertura da Rua de Comércio resolva essa captação, muito menos irá valorizar a arquitetura urbana, criar uma dinâmica de uso do espaço público em toda a área central da cidade. Assim,
8. faltará uma visão estratégica de como solucionar um problema estrutural da falta de um comércio forte e dinâmico que ajude a cidade a crescer, pois nos últimos 30 anos tem vindo a perder capacidade de atração, de renovação, na medida em que nesse tempo houve uma visão que assentou apenas na gestão quotidiana sem preocupação em pensar a cidade a região para o futuro.
9. Espero que reconsidere o verdadeiro interesse/investimento pois parece-me não obter qualquer resultado ou vantagem na solução de aplicação da cobertura em causa.
Os meus cumprimentos,
Carlos Veloso, arquiteto



