Dirijo-me a si seguramente convicto de que vai ler esta missiva e tomar atenção às minhas palavras, coisa que aliás muito bem o distinguirá do regular leitor deste jornal.
Escrevo-lhe para lhe dar conta das minhas opiniões sobre os recentes acontecimentos nos arredores da sua capital, opiniões que certamente partilho com centenas de pessoas, ou mesmo dois ou três cidadãos hospitalizados no Miguel Bombarda.
Permita-me o atrevimento de lhe dizer que o Sr. Ministro foi descaradamente bruto quando chamou “escumalha” a uns pobres garotos que mais não fizeram do que apedrejá-lo e atormentar algumas famílias. Há gente que se queixa de não poder sair à rua por causa de uns miúdos traquinas? Primeiro, se as pessoas têm uma casa onde morar, não vejo razão para quererem sair à rua por dá cá aquela palha. Muito provavelmente, afirmam essa pretensão de se ausentarem dos seus lares apenas por despeito. Segundo, se têm medo duma rapaziada com sentido de humor – digamos – mais físico, talvez não mereçam viver numa sociedade cosmopolita onde a facécia não pode nem deve ter limites. O Sr. Ministro estará decerto familiarizado com comediantes que incluem habitualmente nas suas actuações a destruição completa de cenários. Agora, Sr. Ministro, lembre-se: estes jovens não tiveram acesso aos meios técnicos para livremente poderem expressar a sua veia galhofeira. Resta-lhes apenas o recurso a pequenas partidas como incendiar carros, injuriar ministros e aterrorizar gente pacata. Podia, no máximo, chamar-lhes “palhaços” e acrescentar “no bom sentido”.
Deixe-me também mostrar-lhe o meu descontentamento com a morte dos dois rapazes naquela central eléctrica. Estes meninos nada fizeram para além de se envolverem numa pequena actividade menos legalmente ortodoxa. Os espíritos progressistas culparam a polícia e muito bem. Só o simples facto de a polícia existir é já uma atitude provocadora. Imagine-se agora aparecer…
Considero da inteira responsabilidade do Sr. Ministro, e também absolutamente legítimo, tudo o que se passou a partir desses acontecimentos. Parece-me ideologicamente coerente que os automóveis carbonizados pertençam a famílias de operários e funcionários que labutaram para obter alguns pertences que servem apenas para humilhar vizinhos de origem étnica diversa. Os multiculturalistas têm toda a razão quando justificam as atitudes dos petizes com a exclusão. No fundo, estão – e bem! – a reprovar o comportamento burguês dos cidadãos da classe média trabalhadora. A ostentação deve ficar a cargo dos sacanas dos ricos brancos, a quem nada serve queimar os carros, uma vez que eles iam logo comprar outro, e se calhar ainda melhor.
No início da semana, o seu Presidente chamou aos jograis da paródia nocturna (o Sr. Ministro devia ter-se-lhes dirigido desta forma) “filhos da República Francesa”. E quanta razão tem M. Chirac, atendendo a tantas e tantas vezes na história que a França foi meretriz de outras nações.
O Sr. Ministro fala da grandeza da França, mas não especifica. Na realidade, o que legou a história francesa à Humanidade? Nada. Só uma língua que foi falada em todas as cortes europeias até ao dealbar do século XX. Mais alguma coisa? Não. Um ou outro pintor, talvez. Toulouse-Lautrec, Monet, Cézanne. Finito. Ah, pronto, uns escritores, como Victor Hugo ou Émile Zola e Stendhal. Acabou. Que mais deu a França ao mundo? Tirando Voltaire, Montesquieu, Tocqueville, Aron, nada. Bem, Sartre, Lyotard e Foucault. Mas mais alguma coisa? Nada! Só, talvez, a catedral de Notre-Dame, a Estátua da Liberdade ou Astérix. A única coisa de que a França se poderia realmente orgulhar seria Tintim, mas o seu criador nasceu na Bélgica.
Os meus melhores cumprimentos.
Por: Nuno Amaral Jerónimo


