1. O Governo, pela voz do ministro-adjunto, acaba de anunciar 164 medida para valorizar o interior. Cento e sessenta e quatro? Não será fartura a mais? O poder político, sobretudo no nosso país, usa uma técnica de comunicação infalível. Consiste em lançar um soundbite introdutório, no momento próprio, acompanhado de vistoso fogo de artifício. Logo a seguir, a coisa é divulgada, com pompa e circunstância. Entretanto, a populaça rende-se ao foguetório, embasbacada. Os média dão serventia. Estendem os microfones. O komentariado exulta. A oposição crítica por dever de ofício. Mas raramente explica e ainda menos desmonta. Depois chega o momento da avaliação dos resultados. Quais resultados? No espaço público nacional, escasseiam as instâncias intermédias. Que filtrem a retórica e encolham a propaganda. Que não esqueçam. É por isso que os cidadãos deverão estar munidos de um manual de instruções e outras ferramentas, para não se perderam nesta floresta de enganos. No exemplo, se lerem bem a notícia, qual é o alcance prático do anúncio? Vejamos:
a) Repor em funcionamento os tribunais encerrados pela reforma judicial encetada pelo governo anterior. Porquê e com que critérios? Ninguém sabe. b) Encorajar o investimento privado. Pois. Com os níveis de tributação que se conhecem, já se estão a imaginar contentores de empresários a desembarcar em Freixo de Espada à Cinta ou no Alandroal. c) Quanto a incentivos fiscais e isenção de portagens nas ex-SCUT para residentes nas regiões servidas, pois é isso que poderá introduzir alguma competitividade, nem uma palavra. e) Certamente, irão ser criados gabinetes e observatórios para encaixar mais uns boys ainda desempregados; f) Não sei se repararam num pormenor: dá-se espaço para que os louros do programa sejam compartilhados com o poder local. Isso só pode significar que as autárquicas estão a porta. E o resto é paisagem.
2. Portugal, diz-se, é um país de poetas. Será? Vejo muita gente a escrevinhar o que se julga serem poemas, mas poetas “a sério” há poucos. Refiro-me àqueles que dizem que o leite está azedo, parafraseando Cesariny, quando é preciso. E muitos confundem poesia com efusões líricas, transportes místicos, ou recados sentimentais. Não reconhecendo o vigor subtil da poesia verdadeira, quando ela se manifesta. Ou seja, em Portugal trata-se mal a poesia, mas glorificam-se os rituais a ela associados. Por isso, estranho ver esta agitação em torno da atribuição do Nobel ao sr. Zimmerman. Com trincheiras de um lado e do outro. De um lado, os moralistas e defensores do cânone. Do outro, os que agitam com fervor a qualidade literária e o impacto das letras de Dylan. Felizmente, a poesia dispõe de um código aberto. E de um preço que é preciso estar disposto a pagar.
3. Anda por aí um perigoso cidadão à solta, armado até aos dentes. Já matou duas pessoas e outras duas estão feridas com gravidade. Por sua vez, agrediu e ameaçou com violência o casal a quem “pediu” o carro “emprestado”. Há testemunhas e vitimas dos crimes, que o identificaram inequivocamente. Porém, é tratado nos media como “alegado”, ou “presumível” homicida. É altura de se acabar com o uso e abuso destas expressões. Sobretudo, do emprego indiscriminado do “futuro do presente composto” (terá cometido, terão praticado, etc). Compreende-se que o respeito pela presunção de inocência, consagrado na Constituição, implique alguma cautela. Nomeadamente, a utilização de expressões subjuntivas. Todavia, deveriam limitar-se aos casos em que a autoria de determinado acto ilícito é meramente conjectural, ou baseada em elementos circunstanciais. Daqui a uns tempos, vai aparecer uma novela, ou um filme, que nos conte uma bela história policial para adormecer no sofá.
4. As polémicas na Guarda são genuinamente originais. Têm como combustível o ressentimento pelo convite que não chegou, pelo cargo que outro ocupou, pela competência que alguém usurpou, pela notoriedade que se toma como imerecida. O objecto é sempre outras pessoas, nunca outros projectos, outras ideias, ou outras visões concorrentes. Tudo se resume a uma diáspora fulanizada, a um ademane de egos bravios, avessos à adrenalina da rua, ou à elegância do fórum a céu aberto. Não chega a ser luta política, porque lhe falta a destreza. Nem labor cívico, porque, ao contrário da sagaz sugestão de Benjamin Franklin, os seus actores recebem conselhos com água e tomam decisões com vinho.
5. Pode ser num dia qualquer. Acordamos. Dizemos as orações. Ou não. Coçamos uma cena qualquer. Ou não. Olhamos para o lado e alguém ressona em paz. Ou não. Pensamos em como vamos pagar as contas que chegaram ontem. Ou não. Ensaiamos mentalmente o que vamos dizer aquele sacana do vizinho/colega/familiar que nos anda a tramar. Ou não. Fazemos uma breve sessão de meditação. Ou não. Abrimos a janela. Ou não. Qualquer coisa. Mas seja o que for, imaginamo-nos sempre ao abrigo da doença, da pobreza, da solidão, ou de algo ainda pior. Temos como certo que podemos dizer sempre “Mãe, olha, já consigo andar sem mãos! “ e alguém irá fica embevecido com o nosso feito. É mentira. Damos como garantido que, se estivermos aflitos, à última hora aparece sempre a cavalaria, para nos salvar. Mas não há cavalaria nenhuma. Um dia, um dia qualquer, acordamos. E percebemos que ninguém nos irá bater palmas, nem tirar de apertos. Talvez seja esse o dia mais importante das nossas vidas. Ou não.
Por: António Godinho Gil
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


