Arquivo

Besta ou Bestial?

Numa altura em que a dança dos treinadores está na ordem do dia este é um assunto que merece reflexão. É conhecida a frase, célebre, de Mário Wilson, o “capitão”, quando nos anos setenta/oitenta dizia que qualquer treinador que orientasse o Benfica se arriscava a ser campeão. Hoje esse fenómeno é reconhecido, com a única diferença de que o substantivo passou a ser o FCP. Este tipo de constatações são um reconhecimento de que faça o treinador o que fizer, há outras condicionantes que influem no rendimento desportivo. Em primeiro lugar está a qualidade dos jogadores (daí a expressão que sem ovos não se fazem omeletas). É diferente ter jogadores com uma técnica exímia, de ter jogadores que revelam dificuldades de coordenação. É diferente ter jogadores que revelam défice na leitura do jogo de ter jogadores que antecipam bem o desenrolar das jogadas. Outro factor a ter em conta para o rendimento das equipas e que muitas vezes passa despercebido, são as tomadas de decisão que se vão fazendo ao nível dos departamentos técnicos dos clubes, seja ao nível da prospecção de jogadores, com vista a próximas épocas, seja ao nível do acompanhamento médico e clínico.

Tendo como pano de fundo este enquadramento sobre o rendimento dos jogadores e das equipas, analisemos então alguns dos acontecimentos que têm marcado o dia a dia das especulações futebolísticas.

Vejam-se os recentes casos, do Real Madrid e do Benfica. Como é possível em tão pouco tempo mudar tanto? Será obra do destino? O Real há dois meses era a equipa dos galácticos. Isolada no primeiro lugar da Liga espanhola, apurada para os quartos-de-final da “Champions” e finalista da Taça do Rei, melhor seria difícil. Mas mais importante do que os resultados eram as exibições da equipa. Muitos críticos comparavam as exibições em Chamartin com um espectáculo de ópera. Dava gozo ver certas jogadas de Roberto Carlos, Zidane, Figo, Ronaldo e companhia. Aquilo sim, era futebol com arte! De repente tudo se transforma e modifica. Após o azar da final com o Zaragoza, e da eliminação infeliz com o Mónaco, a equipa afunda-se numa crise sem precedentes. O treinador passa de bestial a besta. E no final é ingratamente despedido numa conferência de imprensa em que a sua competência é posta em causa, quando há semanas atrás era alvo da maior admiração.

Quanto ao Benfica passou-se algo de semelhante, mas em sentido inverso. Há cerca de dois meses, as expectativas eram poucas ou nenhumas. Situado a meio da tabela, eliminado da Taça UEFA, com exibições que até faziam doer o coração, um treinador contestado e a massa associativa cada vez mais descrente, difícil seria pior. De repente tudo se transforma. Com uma mão cheia de boas exibições, misto de orgulho ferido e de brio profissional, o Benfica consegue ultrapassar o Sporting e ganhar a final da taça ao FCP. É esta ponta final que faz os adeptos verem em António Camacho o grande treinador que até há dois meses atrás ninguém tinha visto. De Besta a Bestial, o percurso de Camacho é o inverso do de Queiroz. Agora que é conhecida a contratação de Camacho pelo Real, para que o círculo de percursos inversos se complete só falta ao Benfica trazer Queiroz para a Luz. De Besta a bestial a distância é curta.

Por: Fernando Badana

Sobre o autor

Deixe comentário