1. O PSD interpôs uma ação judicial contra Marco Baptista, o candidato à Câmara da Covilhã em 2017, que gastou 87.066 euros sem autorização do partido. Com esta decisão, a direção do PSD transmitiu uma mensagem política de seriedade e rigor.
Rui Rio quer reforçar a imagem de líder de “boas contas” e evidenciou a sua reputação afirmando categoricamente que o partido não admite candidatos que não cumpram os limites orçamentais: O partido mudou! É a mensagem de Rio. E é assim que quer conquistar o país. «Quem não sabe governar o partido não pode governar o país», conclui o presidente do PSD!
Marco Baptista foi derrotado e, mesmo gastando muito acima do orçamentado, teve o pior resultado de sempre do PSD no concelho da Covilhã. Pior, Marco Baptista foi a surpreendente aposta de Passos Coelho que não conseguiu o apoio das bases, não teve votos e envergonhou o partido. A seguir à derrota humilhante desapareceu enquanto era acusado de desviar 115 mil euros da Associação da Rede das Judiarias de Portugal, de que era secretário-geral. Apareceu depois no centro de psiquiatria da Guarda, desamparado e “perdido”, quando se dizia que estaria em fuga para o Brasil ou outro destino tropical. O homem tocou no fundo. Ter sido candidato pelo PSD à Câmara da Covilhã foi um sonho e uma tragédia. Foi muito mais do que aquilo que o próprio poderia ambicionar. Foi o seu voo sem asas ou sequer paraquedas. Quis voar alto e caiu com estrondo. E agora, quando o PSD faz caça-às-bruxas, é escolhido como o arauto dos excessos e da irresponsabilidade. Estranhamente, Rui Rio foi mais lesto a denunciar os malvados do partido do que a criticar a “geringonça”. Mas se para muitos a decisão mostra uma enorme coragem política, se não for replicada rapidamente identificando e processando outros incumpridores, concluiremos que foi fácil ao PSD escolher o “exemplo” e apontar todas as armas a Marco Baptista: é fácil bater num “moribundo” – Marco Baptista parece um saco de pancada a quem todos querem bater. Assim é fácil falar de moralidade.
2. A proposta de desconto para os custos do transporte coletivo em Lisboa e Porto vem colocar na agenda não apenas a subsidiação do transporte coletivo, mas também a falta de equidade no tratamento dos portugueses. O desconto reivindicado pelo presidente da Câmara de Lisboa e secundado pelos autarcas da “grande Lisboa” e do “grande Porto”, que pode ter interesse ambiental, mas tem essencialmente um grande interesse eleitoral, deverá custar 100 milhões de euros ao país, a somar aos muitos milhões que já são suportados pelo Estado no “passe social” lisboeta e no subsidio à exploração às empresas de transportes – cada vez que um cidadão do interior abastece o seu carro está a contribuir, sobremaneira, para pagar o Metro de Lisboa, ou o comboio da Linha do Estoril ou o elétrico de Sintra à Praia das Maças…
Como escreveu Óscar Afonso (mirandês e presidente do OBEGEF), no “Público”: «Paulatinamente, a partir do século XVI, a grande “cápita” Lisboa fez de Portugal uma carreira junto ao mar, o resto são as costas que não se vêm ao espelho. Com o tempo, a minha terra e todo o interior do país, foi-se contentando a viver de sobras, de migalhas, sem nunca ser capaz de se “zangar de verdade”. Um dia, ninguém sabe bem quando, o país pôs-se a caminho de Lisboa e agora não encontra modo de voltar!».
Entretanto, eu, para ir trabalhar, tenho de ter carro, gastar gasóleo, pagar portagens caras, porque não tenho transportes públicos como alternativa. Enquanto quem vive em Lisboa, com o poder dos votos e um enorme queixume, sem precisar de comprar carro, pagar seguro, pneus, oficina ou gasolina, com transportes públicos subsidiados (a Carris vai receber 250 milhões de euros em 2019 para “investir” em equipamento) e desconto no passe social, que já é parcialmente suportado pelo Orçamento de Estado. E como se isto fosse pouco, o governo acaba de desviar 25 milhões do fundo de solidariedade europeu para as vítimas dos incêndios de 2017 para comprar mangueiras dos bombeiros, pneus da GNR, telefones da Proteção Civil ou carros do ministério. Assim vai o país!
Luis Baptista-Martins


