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Bandeira da mobilidade não cobre todas as necessidades

Passeios altos e falta de rampas entre as maiores queixas de deficientes motores e invisuais da Guarda

Apesar de ter recebido, em Setembro passado, a Bandeira de Prata da Mobilidade para Todos, a Guarda continua a apresentar vários obstáculos aos deficientes que tentam circular na rua. Há muitos passeios altos, as rampas para cadeiras de rodas são poucas – algumas até são demasiado inclinadas, o piso é irregular e as passadeiras não têm indicação sonora. É assim que João Fonseca, deficiente motor, e Liseta Marques, presidente da Guarda da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), sentem a cidade.

Satisfeitos com a forma como o centro histórico está a ser intervencionado, dizem que é apenas um começo e que falta muito mais. Joaquim Valente, presidente da Câmara, considera que a Bandeira de Prata confirma um trabalho da autarquia que continuará a ser feito «paulatinamente». «A cidade tem muitos obstáculos nos acessos», aponta Liseta Marques. Para os mais de 40 cegos ou amblíopes da Guarda, a mobilidade é dificultada pelas obras que vão acontecendo nos passeios – «por vezes temos de sair para a estrada», lamenta – «pelos buracos, pelo piso desnivelado, pelos carros mal estacionados e pelas passadeiras sem sinal sonoro». A dirigente da ACAPO reivindica, «para começar, o arranjo dos passeios e a instalação de sinais nas passadeiras». Para João Fonseca, que mora na zona Sul da avenida Rainha D. Amélia, as dificuldades começam logo aí. «Não consigo ir daqui ao centro sem fazer metade do caminho pela estrada», adianta. Na zona do Jardim José de Lemos, este deficiente motor não consegue subir os passeios, que também são altos na Rua Alves Roçadas – e estreitos, mas «as pessoas facilitam», reconhece.

Quando assim não é, vê-se obrigado a circular com a cadeira de rodas – eléctrica, mais pesada que as comuns – em plena estrada, onde circulam também os automóveis. É também com a ajuda de amigos que vai conseguindo movimentar-se com maior facilidade no centro da Guarda. «Mas há casos de pessoas que estão sempre fechadas em casa, porque a cidade não lhes proporciona hipóteses para andarem sozinhas», critica. «Quando ando sozinho, sinto que estou sempre a correr algum tipo de risco», confessa. Além das ruas, há vários edifícios que merecem reparos da sua parte. O Teatro Municipal, por exemplo, «está bastante bem, excepto aquela gravilha nos acessos. O edifício da Câmara também merece elogios, mas é difícil chegar-se lá por causa dos passeios», aponta. O pior caso é mesmo o edifício do Centro Distrital de Segurança Social. «É um local onde vai muita gente com problemas, mas tem uma rampa com inclinação que está fora da lei. Para além disso, tem de se pedir sempre a alguém que abra a porta para deficientes», refere.

Rampa chumbada

Uma situação com que, de resto, João Fonseca e outras pessoas incapacitadas se vão deparando: «Muitos sítios até têm rampas, mas são muito inclinadas, ou então as cadeiras de rodas não cabem nos elevadores», exemplifica. Mas há outros locais sem elas. Como o hospital, que só tem rampas junto às Urgências, só que para as macas. Ainda no centro, as casas de banho recentemente construídas no Jardim José de Lemos estão inacessíveis para quem tem dificuldades de movimentação. Joaquim Valente alega haver «outras instalações sanitárias com acessibilidade para deficientes» e que isso não se verifica no jardim por se tratar de «uma intervenção muito cara». Contudo, os problemas não estão só nos edifícios públicos, também as lojas não facilitam a entrada de pessoas de mobilidade reduzida. A maior parte dos espaços comerciais da cidade é antiga e tem degraus. Por vezes, nem a boa vontade é suficiente. «Há algumas semanas, o barbeiro onde costumo ir fez obras e incluiu uma rampa. Como não estava especificada na planta, os fiscais da Câmara fizeram-na tirar», garante.

Cafés e bares são alguns dos estabelecimentos com mais entraves, apenas superados por João Fonseca se fazer transportar, nesses casos, na cadeira manual (mais leve) e pelos amigos. Quanto a estas situações, o edil reconhece que «nunca estará tudo feito», mas revela que, no terreno, está uma equipa que envolve técnicos de todos os pelouros da autarquia com a missão de confirmar que as empreitadas acautelam a mobilidade das pessoas com deficiência. «Não há um projecto específico, mas há o objectivo de ir fazendo as coisas aos poucos», sublinha Joaquim Valente. Ainda assim, «as obras no centro histórico têm melhorado a situação», admite João Fonseca. Um piso mais regular, com a eliminação de alguns passeios, tem facilitado o acesso das pessoas com deficiência ao coração da cidade. «Com esse piso, os cegos e amblíopes têm a vida mais facilitada», considera também Liseta Marques. No entanto, ambos reconhecem que «falta fazer muitas coisas no centro da cidade, onde as pessoas mais gostavam de andar».

Igor de Sousa Costa

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