Outubro de 2015. Estou numa portagem da A25, na saída em direção a Celorico da Beira. A portagem é agora pré-paga, terminada que foi a experiência dos pórticos e para evitar o amontoar de processos por “utilização abusiva de vias de comunicação”. A máquina indica-me as opções: “caltão de clédito, dinheilo, sangue”. Tento o cartão de crédito, que não tenho dinheiro, e a máquina responde: “Sem saldo, tente outlo meio de pagamento”. Nos últimos dias já entreguei mais de um litro de sangue em pagamentos, mas tenho de arriscar. Tenho uma reunião importante em Celorico e preciso de chegar a horas. A A25 é a única hipótese, desde que a antiga nacional 16 foi reconvertida em terreno agrícola, e preciso daquele trabalho para pagar o empréstimo em que dei o rim que me resta de garantia. Atrás de mim, em carros tão maus e velhos como o meu, estão mais alguns utentes. Parecem todos macilentos e cansados, e aposto que vão também pagar a portagem com sangue.
Tudo isto, se bem me recordo, teve origem no célebre empréstimo chinês de quinhentos mil milhões de euros, depois da nossa expulsão da União Europeia em 2012. Antes do empréstimo ainda tentámos resolver o problema das nossas finanças públicas vendendo o resto do ouro nos mercados mundiais, a Caixa Geral de Depósitos a um banco alemão e a ilha da Madeira aos ingleses. O problema é que tivemos de pagar uma pesada indemnização compensatória aos ingleses, quando estes se aperceberam de que todos os cidadãos madeirenses eram funcionários públicos no topo da carreira e que a região tinha uma gigantesca dívida escondida.
E foi aí que chegaram os chineses. O empréstimo tinha como primeira condição a abertura das nossas fronteiras a uma quota de cinco milhões de chineses, com direitos totais de cidadania, incluindo eleger e ser eleitos. De garantia tivemos de dar a maior parte dos nossos monumentos, um quarto do parlamento e três ministérios, incluindo o das finanças. Isto explica a razão de a Torre de Belém se encontrar neste momento a abrilhantar o porto de Shangai, na foz do rio Yangtze. É claro que no ano seguinte as condições se agravaram, quando não pudemos pagar as primeiras prestações do empréstimo. Tivemos de ceder mais ministérios, mais lugares no parlamento, as principais câmaras municipais e o Mosteiro dos Jerónimos. Começámos também a perder as nossas casas, vencidas as hipotecas, e muitos de nós, sobretudo os portugueses de origem não asiática, começaram a viver em bairros da lata.
A última novidade foi o “acoldo oltogláfico” (“acordo ortográfico”, na redação antiga). É que, quando os chineses passaram a mandar de facto no país, e previamente à utilização geral de ideogramas, fomos obrigados a mudar a língua de modo a que esta fosse mais fácil para os novos senhores. Era só uma letra, primeiro, mas tinha de ser o “r”. É por isso que este jornal se passou a chamar o “Inteliol” e o seu diretor (interino, até que Yang Tchang acabe o curso rápido de português) teve de mudar o nome para Luís Batista Maltins.
E, perguntarão, que se passa com a antiga classe política? Ora bem, Cavaco está reformado e vive no Algarve, na vivenda Mariani, voltas do destino pouco explicáveis mas que evitaram a penhora de um pulmão para pagamento de dívidas fiscais. Sócrates fugiu a tempo para a Venezuela. Outros encontraram empregos em circos, onde vestem de palhaços e fazem rir as crianças chinesas com simulacros de debates em português no parlamento. O Passos Coelho arranjou um emprego muito jeitoso, como vendedor de uma fábrica de têxteis chinesa com um nome que vos soará familiar: Maconde.
Por: António Ferreira


