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“Aquarius”

Editorial

Enquanto todos andamos abstraídos entre as trivialidades da vida, o encontro de Trump com Kim Jong un, a insensatez de Bruno de Carvalho, o Mundial, os aumentos inaceitáveis do preço do combustível, as promoções automáticas dos professores ou as noivas de Santo António, 629 pessoas, resgatadas no Mediterrâneo, foram votadas à morte pelos governos de Malta e Itália. “Refugiados”, “migrantes”, “fugitivos”, o que lhes quiserem chamar, mas antes de qualquer designação, seres humanos. Pessoas que deixaram para trás uma vida miserável, de tristeza, angústia, guerra ou fome; pessoas que se atiraram ao Mediterrânio acreditando num futuro na Europa, e à procura desse futuro arriscam a própria vida todos os dias, sem medo, sem olharem para trás, porque tudo o que encontrarem será melhor do que aquilo que têm. Sem temerem pela própria vida, seres humanos que sonham sobreviver ao naufrágio em “pateiras”, que confiam na solidariedade internacional, que acreditam que na Europa há lugar para todos.

O novo Governo italiano, nacionalista e xenófobo (depois de Itália ter recebido centenas de milhares de refugiados nos últimos anos), fechou os portos e encerrou a rota humanitária.

Entretanto, e enquanto nas capitais europeias se trocavam acusações de hipocrisia ou cinismo, a bordo do “MS Aquarius” (um navio de uma ONG que vai salvando vidas no Mediterrânio) 629 pessoas receberam do novo Governo espanhol autorização para desembarcar em Valência (a maioria serão acolhidos como refugiados, por fugirem de regiões em conflito, alguns poderão ser deportados para os países de origem).

Enquanto em Itália ou na Hungria se celebrava o populismo, a xenofobia e a “vitória” contra a solidariedade, Pedro Sanchez, o novo primeiro-ministro espanhol, contrariando a propensão europeia de nacionalismo, dava uma lição de humanismo. Ainda a afirmação do ministro do Interior italiano soava no ar – «primeiro os italianos» – e já Sanchez dava uma prova de defesa da vida.

Enquanto o discurso populista, de intolerância, de intransigência, de egoísmo, onde primeiro estamos nós e os nossos, vai ganhando adeptos por toda a Europa, é reconfortante ver emergir lideranças que, perante mais uma crise humanitária, têm a sensibilidade, o bom senso e a capacidade para salvar vidas, para ajudar quem precisa. Efetivamente, o problema tem de ser resolvido a montante, nos países de origem, onde os negócios das armas ou do petróleo, as guerras ou a fome, o fanatismo religioso e as ditaduras, destroem as possibilidades de futuro. Mas, enquanto não se conseguem melhorar as condições de vida dos menos afortunados, enquanto não se investe no desenvolvimento dos países mais pobres e enquanto não se consegue promover a tolerância e a paz no terceiro-mundo, o ocidente, os países mais desenvolvidos, têm de olhar de forma solidária e ajudar os mais pobres e perseguidos que procuram ajuda.

Luis Baptista-Martins

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