O mundo que se evidencia na televisão ou na capa da revista, que se mostra nas placas comemorativas, que escreve a história e deixa memórias, que vence as batalhas eleitorais e se condecora, que providencia e governa, esconde outros mundos obrigados pela exigência anónima.
Entre esses outros, avulta o mundo daqueles que se limitam a cortar a pedra em que se inscrevem as placas, que constrói e produz, que concebe e inspira, que ensina pelo exemplo, trabalha e erra, tenta e duvida, paga a dívida e entrega o imposto.
São todos aqueles que sem nome, sem graduação, sem título, esperaram de pé todos os desafios, responderam à chamada, estiveram nas batalhas, correram riscos, afadigaram-se a acudir à urgência de outros, viveram inquietações repetidas, angústias de quem pediu e não recebeu, de quem viveu e amou sem esperança. Persistentes, anónimos e heroicos.
Ora é profilático ter memória das coisas que não merecem ser esquecidas.
A ética recomenda também que todo o triunfo deve ser acompanhado de modéstia.
Quando as batalhas são ganhas, os tempos cumpridos e os sonhos realizados é necessário lembrar todos aqueles que participaram da ação, responderam à chamada, estiveram nos debates, partilharam os desafios, assumiram as bandeiras e bateram as palmas.
Sempre que alguém vê mais longe, se ergue mais alto, isso só foi possível porque estava aos ombros de todos aqueles que foram gigantes na ação. São todos esses homens e mulheres que na sua vida modesta de trabalho, feita de rotina, de luta, de alegria e dor, inquietação e angústia, estão no mundo para compartilhar, acrescentar, somar e contribuir e dar sem pedir recompensa.
É o Povo que sabe sempre do caminho certo mesmo nas horas incertas.
Que faz o seu caminho sem perder a memória dos tempos.
Por: Júlio Sarmento
* Ex-presidente da Distrital do PSD da Guarda e antigo presidente da Câmara de Trancoso


