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Ano novo, vida nova

Editorial

1. Depois de anos de crise e quatro de fustigante austeridade, com o advento do novo ano há no ar muitas e boas expetativas, como se o desastre do país já tivesse acabado. Mas não acabou! A tragédia dos portugueses tem sido perturbante e a expressão de Fernando Ulrich (presidente do BPI) não me sai da cabeça: «O país aguenta mais austeridade? … Ai aguenta, aguenta!». E tem aguentado. Aguentou pagar o BPN e o BPP; depois suportar o escândalo das falcatruas do BES e o criminoso assalto à maior empresa portuguesa (a PT) entretanto entregue aos brasileiros que a venderam aos franceses… E acabou 2015 a assumir a liquidação do Banif (um pequeno banco que, afinal, nos vai custar muito dinheiro), sem que ninguém percebesse como ou porquê, num processo mal explicado, que acabou com a venda ao desbarato ao Santander, que assim melhorou a sua capitalização e entrou em força na Venezuela (onde o regime chavista não o queria e onde há 400 mil portugueses, clientes do Banif). Mas o mais estranho é que ninguém foi preso no meio da barafunda que tem sido Portugal; no meio do assalto à coisa pública, num país em que a corrupção cresceu, e cresceu numa única direção, a dos poderosos. O desafio da governação em 2016 vai muito para além das contas públicas e tem de passar pela recuperação económica, pelo apoio social e diminuição das desigualdades (há mais de dois milhões de pobres em Portugal), pela coesão territorial (com majoração fiscal para o investimento no interior) e pela luta sem tréguas contra as diferentes formas de corrupção (o compadrio nas contratações públicas; os supostos concursos públicos para contratar pessoas que já estão escolhidas – militantes do partido, noras, namoradas, primos, filhos e enteados …;). Os portugueses estão fartos e querem um país diferente, um país onde não continuem a ser esmifrados, para receber tão pouco, um país cujos filhos emigram aos milhares (465 mil nos últimos quatro anos), um país que ainda tem esperança, a esperança de que 2016 seja mesmo um ano melhor.

2. Dez candidatos apresentam-se às eleições para conquistar a Presidência da República, depois de dez inenarráveis anos de Cavaco Silva como chefe-de-estado. Marcelo Rebelo de Sousa tem a passadeira estendida até Belém, pelo trajeto e protagonismo público (conquista sua), mas também porque os demais candidatos ainda não evidenciaram méritos, ideias ou talentos para poderem aspirar a impedir a vitória do candidato da direita. A experiência e simpatia de Maria de Belém não chega para unir os socialistas à sua volta quanto mais os portugueses; Sampaio da Nóvoa, sobre quem foi lançado algum otimismo e esperança, é uma trágica desilusão que repete vulgaridades sem relevância e tem como único argumento o apoio de três antigos presidentes (e, como disse Henrique Neto, de académicos estamos todos «fartos»); Marisa Matias é uma lutadora, mas não é levada a sério; Edgar Silva não tem noção do que é a presidência; Henrique Neto não tem apoios, mas sabe do que fala e conhece bem a realidade nacional (é a surpresa pela positiva dos debates); Paulo Morais tem razão na maioria das suas acusações mas a sua argumentação é limitada – Alguns dos debates entre estes candidatos têm sido muito mais esclarecedores e interessantes do que todos os debates das legislativas onde a ladaínha partidária era a única coisa que sobressaía. Dos outros nem vale a pena falar, uma tropa fandanga…

Luis Baptista-Martins

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