Mais de uma centena de alunos de São Tomé e Príncipe que estudam em escolas profissionais da região e no Instituto Politécnico da Guarda estão a passar por dificuldades económicas.
O alerta partiu da Associação de Estudantes dos Países Africanos da Língua Oficial Portuguesa da Guarda (AEPALOPG), cujo presidente da direção, Felisberto Tertuliano da Costa, disse a O INTERIOR que há casos «de carência alimentar, de dificuldade em pagar o alojamento e as propinas, no caso dos que estudam no IPG», acrescentando que tal acontece porque «a maior parte dos alunos não tem direito a bolsa de estudo» por parte do país de origem e também devido ao atraso das escolas em pagar os subsídios. A situação já foi relatada numa carta enviada ao ministro da Educação e Cultura de São Tomé e Príncipe. Felisberto Costa adianta que a situação arrasta-se há um ano e que durante esse tempo houve mesmo «casos de fome» entre os alunos da Escola Agrícola da Quinta da Lageosa (Belmonte), do Externato Nossa Senhora de Fátima (Manteigas) e do Instituto de Gouveia.
A situação mais crítica viveu-se precisamente em Gouveia, porque «de setembro a dezembro, a escola não disponibilizou o dinheiro para pagar o alojamento e alimentação», sendo que os alunos «dependem por inteiro desse subsídio», revela o dirigente. No caso de Gouveia, «estamos a falar de cerca de 20 alunos, dos quais três ou quatro trabalhavam e tinham mais independência, mas os restantes não tinham outra fonte de rendimento e precisavam desse dinheiro para comer», acrescenta Felisberto Costa. Já em Belmonte, a situação de carência alimentar afetou cinco alunos. Em ambos os casos, «valeu a intervenção de instituições de solidariedade para minimizar as dificuldades», acrescenta o representante dos alunos. Foi este «ano de inferno» que levou Felisberto Costa a escrever ao governo do seu país «para evitar que o cenário se repita».
«Estamos também a tentar assinar protocolos de apoio entre as escolas ou câmaras municipais daqui e as autoridades são-tomenses, porque não havia nada disso. O que havia era vagas e a garantia de comparticipações das escolas para alojamento e alimentação, mas o problema surge quando a escola se atrasa com esses pagamentos», refere o dirigente. Na Guarda, Felisberto Costa diz que «não há casos de fome» porque «há apoios de pessoas individuais» e porque «somos poucos, e por isso mais unidos», mas existem «dificuldades em cumprir com os compromissos de alojamento e propinas». Quanto à missiva, os estudantes são-tomenses sabem que já foi «lida pelo ministro», mas não houve qualquer reação: «O governo já recebeu cartas semelhantes de outros locais de Portugal e de outros países onde há são-tomenses a estudar, pelo que a nossa é apenas mais uma», lamenta Felisberto Costa.
Contactado por O INTERIOR, o Provedor do Estudante do IPG disse estar «ao corrente do assunto», mas apenas através da comunicação social. «Sei que é uma situação que se arrasta há algum tempo, mas os alunos ainda não deram conta das suas dificuldades ou pediram ajuda» junto da provedoria, refere Jorge Mendes. O responsável lembra que a raiz dos problemas está «sobretudo no governo são-tomense», mas mostrou disponibilidade para «receber, encaminhar e apoiar qualquer aluno que apresente a sua situação».
Fábio Gomes



