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À procura de sucesso

Editorial

Sem surpresa, mais de metade das vagas de acesso ao ensino superior que ficaram sem alunos colocados são de instituições do interior do país. O mesmo é dizer que são estas universidades e politécnicos os menos procurados. Estas e a do “longínquo” e solarengo Algarve que nos últimos anos também perdeu capacidade de atração de novos alunos – o que confirma a pior das teses: muito para além das distâncias, da interioridade ou da desertificação, os jovens quando escolhem curso e escola optam pelas universidades de maior prestígio e qualidade.

Pior, das 8.022 vagas disponíveis (o menor número desde 2010), e que agora ficam disponíveis para a segunda fase do concurso nacional de acesso, 6.200 são em politécnicos, que cada vez mais são vistos como o “parente pobre” do ensino superior.

O Politécnico de Bragança é a instituição que ficou com mais vagas por preencher – das 1.825 vagas foram preenchidas 540 na primeira fase, ou seja, fica para já com 1.285 lugares vazios. Segue-se o Politécnico de Viseu, com 562 vagas por preencher, o de Santarém, com 493, e o de Castelo Branco com 454 vagas disponíveis. O IPG conseguiu percentualmente melhor resultado que os politécnicos atrás referidos, preenchendo 309 das 676 vagas disponibilizadas – um fraco consolo até porque, como facilmente se percebe, pois, por exemplo, Bragança, mesmo sendo a instituição com mais vagas por ocupar nesta fase, tem já 540 preenchidas.

Os politécnicos e as universidades são instituições da maior relevância a todos os níveis. Para além da sua dimensão científica, técnica e formativa são motores de desenvolvimento e de geração de riqueza. Assim, as instituições de ensino superior devem ser tratadas como elementares em qualquer cidade ou região. E é por isso que, muito para além de todas as outras fragilidades do interior, a menorização das instituições de ensino superior será traumática e diminuirá ainda mais as possibilidades de gerar desenvolvimento, promover emprego qualificado ou contrariar a desertificação acelerada em que vivemos. Os politécnicos da região têm cada vez maior dificuldade para se afirmarem num contexto altamente competitivo, desigual e inclinado para o litoral. Felizmente que o crescimento da Universidade da Beira Interior (que atraiu nesta primeira fase mais de 1.100 novos alunos) permite acreditar que ainda há futuro na região. A UBI consegue ser um pequeno oásis na fuga de cérebros do interior para o litoral e uma ilha no combate à interioridade.

O sucesso da UBI nesta fase (com o preenchimento de 90 por cento da vagas) em contraste com a baixa procura dos politécnicos da Guarda e de Castelo Branco deve merecer um debate alargado e uma reflexão profunda. Muito para além das instituições, é conveniente debater o futuro do IPG e do IPCB, e também da UBI, como âncoras de toda a região. Num tempo em que ainda há milhares de jovens a ingressar no ensino superior, mas que não procuram as instituições do interior, é preciso antecipar um futuro onde haverá cada vez menos jovens com idade escolar. Talvez o caminho para os demais politécnicos da Beira Interior seja, mesmo, o regresso do plano de fusão ou agregação com a UBI – projeto que esteve em cima da mesa, que foi discutido e promovido, mas que recebeu a oposição dos que olham para os louros do presente sem visão de futuro – como Álvaro Amaro, que se opôs à ideia de o IPG integrar uma grande universidade entre Guarda, Covilhã e Castelo Branco, na «defesa da Guarda», a defesa do orgulhosamente sós ou a triste crónica de uma morte anunciada às mãos dos que levam anos no poder e que nos conduziram até ao precipício onde nos encontramos.

Luis Baptista-Martins

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