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A memória do Bolero no Mayflower

Esta crónica vai inteiramente dedicada aos homens que se deleitam em torno de um café de fim de tarde, no “Bolero” do “Mayflower”, gente que conserva a memória do trabalho e do empenhamento de muitos, como Fausto Pontes, Norberto Canha, Almeida Ruas, Armando Donato.

Há pessoas que são determinantes para… escrever a História e compreender os passos que se dão depois. O “Mayflower” foi um barco que atracou na Nova Inglaterra, começando a colonização do território índio. No “Bolero” senta-se a memória das instituições com os seus protagonistas. O professor Norberto Canha foi o grande ideólogo da estratégia de construção dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) e de muitas outras obras de Coimbra. Seria um enorme desafio guardar o seu registo de cidadania em livro ou entrevistas, que, amanhã, permitam saber os porquês e as linhas orientadoras.

Na semana passada encerraram nos Covões a obra do professor Fausto Pontes, retirando o Serviço de Gastro do Hospital Geral. Nada disto seria complexo se não representasse um tempo de submissão e de desorientação. O que vai melhorar? O que vamos conseguir com as estratégias de decomposição e de destruição? O que vamos atingir com edifícios fechados, sem estratégia alguma, como o antigo Pediátrico de Coimbra? Para quê baralhar e dar de novo se faltam cartas ao baralho e, portanto, o jogo fica inválido?

Na minha opinião, é legítimo fechar o Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) e criar um HUC pujante e carregado de soluções. A lenta agonia das duas instituições é que parece uma desnecessidade. Todos somos capazes de entender estratégias de efetividade, todos podemos compreender mais eficiência, mas isso passaria por uma avaliação prévia justa, baseada em dados reais e, depois, pelo desenho de um caminho e de um método de o atingir.

Desde que o atual Conselho de Administração do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) se constituiu que as horas extra de muitos se mantêm nos HUC e se perdem no CHC – mecanismos de desigualdade transportam revolta e incompreensão.

A inutilidade da duplicidade de serviços não está a ser resolvida. A destruição do legado informático dos Covões ou da qualidade do seu grupo de Enfermagem, em detrimento de posturas menos aconselháveis, parece progredir.

No dia 31 vamos todos conhecer o sistema REA e retirar o SIAQUAL de registo biométrico. Para quê? Quanto custará esta mudança? Que vantagem? Vamos, depois, retirar o sistema informático de prescrição do CHC para colocar o dos HUC. E o SAM? O SAM é uma ferramenta amplamente utilizada pelos médicos do CHC que marcam consultas, registam diários, dão altas e a manuseiam de modo exemplar, em vantagem com o manuscrito e o método arcaico em vigor na maior parte dos serviços do HUC.

Mas vamos a outra reflexão. Eles, sentados no “Mayflower”, a beber o café do “Bolero”, nunca foram submetidos a biometria, nunca precisaram de prescrever online, nunca fizeram registos em computador pelo SAM ou outro qualquer e visitaram os doentes, olharam-nos nos olhos, decidiram os seus destinos, cumpriram com zelo e determinação as suas funções.

Os hospitais custavam então muito menos dinheiro. O povo não pagava consultas nem internamentos, não se discutia o medicamento como a causa do demo. Algo, em tudo isto, deve estar errado e uma parte significativa é não ouvir a memória.

Por: Diogo Cabrita

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