No congresso do PSD do passado fim-de-semana foi aprovada uma norma estatutária que permite expulsar militantes que critiquem a direcção em alturas de eleições. De imediato vieram as vozes reaccionárias do costume apregoar a pouca inteligência da decisão dos congressistas. No entanto, ninguém considera ridículo o artigo dos estatutos que permite ao presidente do Congresso pentear os cinco cabelos por cima da careca ou criticou a revogação da regra que impedia os sociais-democratas de usar bigode farfalhudo. E isto só para falar de questões de direito capilar.
Sorte tem Pedro Passos Coelho com a tradição jurídica que estabelece a não retroactividade das leis, caso contrário estaria agora a pregar sozinho na Clínica Dermostética onde lhe arranjam o sorriso ou a dar mais uma entrevista ao “Jornal de Notícias”. Este candidato à presidência do PSD tem sido muito criticado por nunca estar de acordo com Manuela Ferreira Leite e as sucessivas direcções do seu partido. Críticas completamente infundadas, acrescente-se. É por discordar de tudo o que acontece na São Caetano que Passos Coelho deve concorrer a líder do PSD. Não adiantava nada concorrer a líder do PS, uma vez que o secretário-geral Sócrates é uma pessoa de quem o ex-líder da JSD quase nunca discorda.
Devo esclarecer que concordo de forma inequívoca com a alteração proposta por Pedro Santana Lopes. Devo aliás esclarecer que concordo com quase tudo o que Pedro Santana Lopes faz no PSD, excepto perder eleições com José Sócrates e António Costa. (Quer dizer, pensando bem, ultimamente Santana tem feito pouco mais do que isso.) A regra agora aprovada é um exemplo para a moralização da vida política portuguesa. É uma forma de impedir os políticos de acumular cargos e rendimentos, uma vez que os críticos das direcções do PSD conseguem sempre um lugar de comentador na SIC Notícias ou na TSF. Esta regra vem pôr fim ao regabofe de ter uma dupla vida profissional. A partir de agora é preciso optar. Ou se ganha a vida a trabalhar pela “res publica” ou a criticar a direcção do PSD.
O único problema da entrada em vigor da chamada “Lei da Rolha” é a provável extinção do PSD num curto espaço de tempo. Só a provável vitória de Passos Coelho reduzirá o partido a menos militantes do que sócios do Sporting convencidos com as tácticas de Carvalhal. Quando, daqui a um ano, for eleito outro líder depois de quem os dirigentes do PS gostem ainda mais, serão expulsos mais uns quantos. E assim sucessivamente, até sobrar apenas Alberto João Jardim, conforme o número 2 do articulado onde exclui o presidente do Governo Regional da Madeira de todas as sanções. “Uma coisa é ser a lei da rolha, mas para calar o Alberto João teria de ser a lei do portão”, afirmou alguém lá do partido.
Por: Nuno Amaral Jerónimo


