1. Quando em maio foi revelado pela imprensa espanhola que o líder do “Podemos”, o partido da “nova esquerda” e extrema-esquerda espanhola, adquirira um chalé na Serra de Guadarrama, por mais de 600 mil euros, numa zona “bem” próxima de Madrid, os espanhóis ficaram escandalizados. A direita vingou-se de todos os ataques de Pablo Iglésias e o partido esteve à beira da implosão. Divididos, os militantes foram então chamados a votar a continuidade de Iglesias (e da sua companheira, Irene Montero, porta-voz do partido) na liderança do “Podemos” em congresso extraordinário. Essa estratégia permitiu unir de novo o partido e relançar a estratégia anticapitalista, antieuropeia e de denuncia da corrupção da direita espanhola. Se Iglesias e Montero puseram o lugar à disposição do plebiscito, e com isso recuperaram a credibilidade partidária, ninguém esquece que, afinal, se comportaram como qualquer liberal: quiseram uma boa casa, numa zona segura e tranquila, para dar o melhor ao filho que vem a caminho. Quando muitos antecipavam o fim de Pablo Iglésias e a queda do “Podemos”, quem caiu foi Mariano Rajoy e o PP. Mas caiu também a pretensa superioridade moral da esquerda e a partir de então cada vez que um dirigente do “Podemos” ataca os ricos e o luxo, o chalé em Guadarrama é recordado e a incoerência entre o discurso e a prática são chamados à coação. Afinal o discurso inflamado contra os ricos, o capital ou a propriedade privada é para os outros.
2. Nas última autárquicas, o BE apresentou a sua candidatura à Câmara de Lisboa na Mouraria. Simbolicamente, o candidato Ricardo Robles apresentou naquele bairro alfacinha uma plêiade de medidas contra o aumento do alojamento local (AL), contra os despejos, contra os proprietários, contra o lucro, em defesa dos inquilinos, etc. Por isso, ao ser conhecido o seu investimento turístico (com a irmã), em Alfama, Robles acabou por se demitir. O negócio é legitimo, mas é imoral pois vai contra tudo o que o ex-vereador bloquista defendia – virtudes públicas, vícios privados! Como é evidente, a tal superioridade moral que o BE gosta de apresentar na forma como critica tudo e todos, acabou. Como escreveu João Miguel Tavares, no “Público”, «a superioridade moral é assim como a virgindade: uma vez perdida, nunca mais se recupera». A imagem imaculada, de partido impoluto, contra os interesses, que o Bloco gostava de exibir, acabou. Mas isto não significa a queda do BE. Esta terá sido a maior a crise do partido (talvez mesmo mais difícil que a saída de Francisco Louçã), mas a forma como Catarina Martins tem liderado a organização, de forma pragmática, de causas e denúncia de casos, poderá continuar a render apoios aos bloquistas. Mesmo sendo certo que cada vez que venham dar lições de moral todos nos tenhamos que rir.
3. No meio do turbilhão Robles, surgiu também a notícia de que “afinal” a coordenadora do Bloco também tinha negócios de alojamento local (AL). Como alguém comentou, o caso nada tem a ver com o de Ricardo Robles, porém mostra mais uma vez a hipocrisia bloquista. Catarina Martins é sócia, com a família, de uma empresa de turismo no Sabugal. Como é evidente, isso não tem nada de ilegal. Nem sequer é imoral. Mas quando se colocou esta questão, de forma obtusa, a resposta foi de que a atividade representa «turismo em espaço rural» e pode ajudar a fixar habitantes e a combater a desertificação em regiões do interior do país (está a gozar connosco??!). Catarina Martins detinha com o marido, em partes iguais até assumir as funções de deputada (em 2009), um negócio que depois passou a ser do marido e dos sogros, que recebeu fundos comunitários para a reabilitação, que recebe turistas ocasionalmente, e que ou visa o lucro (a tal coisa imoral para os comunistas) ou serve para o usufruto da família. Publicamente atacam a Europa, em privado candidatam-se a fundos comunitários; apresentam uma proposta na AR para definir que os AL apenas pudessem ser explorados por quem habita nos imóveis e têm de ser a morada fiscal dos proprietários, mas têm empresas para fazer exploração em local remoto, onde não residem nem têm domicilio fiscal; defendem na AR que o AL cumpra regras que os próprios depois não cumprem. Além da hipocrisia extraordinária, pode haver ilícito na obtenção de subsídio comunitário para atividade económica. Catarina Martins pode continuar a pôr-se em bicos de pés em público, mas no privado fez o que tantos outros fizeram por esse país fora: receber fundos comunitários para reabilitar casas da família. Bem dizia Frei Tomás, faz o que eu digo, mas não faças o que faço…
Luis Baptista-Martins


