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A força de um “campeão”

João Manuel, obrigado a deixar o futebol devido a uma doença neurológica, está a morar na Mêda

«É um desafio que Deus me deu». Tal como fazia nos relvados, onde nunca regateou esforços na disputa dos lances com os adversários, João Manuel garante que vai continuar a lutar com a boa disposição possível contra a doença do foro neurológico que lhe foi diagnosticada em Janeiro. Desde essa data que o antigo jogador da União de Leiria, a quem José Mourinho trata por “campeão”, está a morar na Mêda, em casa de um irmão.

Aos 37 anos, a esclerose múltipla forçou João Manuel a abandonar o futebol e impede-o agora de fazer qualquer coisa sozinho, já que a doença lhe retira a independência de movimentos. No entanto, perante esta contrariedade que o afectou de forma repentina e alterou radicalmente o seu quotidiano, o antigo futebolista não se deixa abater, demonstrando uma impressionante e contagiante força de vontade. Para o futuro deseja que essa mesma «força de vontade, de viver e de lutar» contra este momento menos bom continue bem forte. «Que eu saiba utilizar uma estratégia para enganar ou tentar ser mais forte que a doença», diz com coragem. Mesmo estando consciente de que «não é fácil», o ex-atleta, que realizou o seu último jogo no Estádio da Luz do “seu” Benfica, sublinha que vai ter que arranjar «muita força» todos os dias. «Só tenho é que olhar em frente e tentar ser feliz», reforça. Aliás, a vontade de viver leva-o a frisar que o «sorriso e boa disposição» são as últimas coisas que perderá, sublinhando que a sua «paixão pela vida é tanta» como a que teve pelo futebol.

Neste momento difícil da sua vida, João Manuel, que se mostra disponível para «ajudar» projectos relacionados com a doença, tem recebido força de muita gente: «Agora tenho a noção de que realmente tenho muitos amigos, conhecidos e simpatizantes no futebol. Tenho tido muitos apoios e uma solidariedade fantástica», garante. Em relação à grande onda de solidariedade criada à sua volta um pouco por todo o país, o antigo pupilo de Mourinho na União de Leiria sublinha serem essas «provas de amizade» e o saber que tem «todo este calor humano» à sua volta que lhe dão força. «Vou ganhando todos os dias mais um amigo e são esses momentos que me fazem feliz», adianta. Com a mesma humildade que o caracterizava como futebolista, deixa o seu agradecimento a todos aqueles que o apoiaram e continuam a apoiar: «Só tenho que dizer o meu obrigado». A viver na Mêda desde Janeiro agradece também «todo o apoio» que o irmão e a cunhada, que o acolheram em sua casa de braços abertos, lhe têm prestado. De igual modo, diz ter-se sentido «acarinhado» pela população da Mêda. «Quando o meu irmão namorava cheguei a vir aqui muitas vezes e até já cá vieram muitos amigos dessa altura. Há sempre um carinho, uma palavra, uma força vinda de um lado ou de outro», refere.

Teria sido o primeiro a ir com Mourinho para o Porto «se fosse mais novo»

A doença foi diagnosticada em Janeiro quando foi internado no serviço de Neurologia do Hospital dos Covões, em Coimbra. A partir daí, «os cuidados foram sempre na perspectiva de que tentasse estabilizar e não adiantar» a doença. Foi um «grande choque, precipitou-se tudo muito rápido», recorda, mas «na vida andamos sempre a aprender e nunca sabemos tudo», avisa. De resto, «se tivesse parado logo no primeiro sintoma que tive, se calhar não estava neste estado. Mas a minha vontade de continuar a jogar era tanta… Pensava que me estava a ajudar, mas estava era a dar cabo de mim ainda mais», lamenta. Para trás ficam mais de 20 anos dedicados ao futebol, muitos deles passados a jogar ao mais alto nível na Iª Divisão. Das «muitas boas recordações» que guarda desse tempo, orgulha-se de ter concretizado os «sonhos» de chegar a uma final da Taça de Portugal e de ter jogado nas competições europeias, o que não foi conseguido «por acaso», mas com «trabalho, fé e dedicação». Outro momento que recorda com nostalgia foi quando Mourinho disse ao grupo de trabalho, e a si pessoalmente, «que se fosse mais novo» seria o primeiro a ir com ele para o Porto. «Disse-me que era pena um jogador como eu nunca ter ido para um grande e mesmo à selecção», uma meta que só não se concretizou devido a uma inoportuna lesão que o afastou da equipa de esperanças.

Doença afecta mais de um milhão de pessoas em todo o mundo

A esclerose múltipla é uma doença inflamatória crónica e degenerativa do sistema nervoso central que interfere com a capacidade do mesmo em controlar funções como a visão, a locomoção e o equilíbrio. Segundo a Associação Nacional de Esclerose Múltipla (ANEM), a doença afecta mais de um milhão de pessoas em todo o mundo. Os estudos epidemiológicos apontam para a existência de 450.000 pessoas com esclerose múltipla só na Europa, com maior incidência nos países nórdicos. Estima-se que o número de doentes em Portugal seja da ordem dos 5.000. Chama-se esclerose porque, em resultado da doença, se forma um tecido parecido com uma cicatriz, que endurece, formando uma placa em algumas áreas do cérebro e medula espinal. Múltipla porque várias áreas dispersas do cérebro e medula espinal são afectadas. Os sintomas podem ser leves ou severos, e aparecem e desaparecem, total ou parcialmente, de maneira imprevisível.

Uma carreira exemplar

João Manuel Loureiro dos Santos nasceu a 31 de Agosto de 1967 em Moimenta da Beira, distrito de Viseu. Desde cedo que a paixão pelo futebol o acompanhou, tendo começado aos 16 anos a jogar no clube da sua terra natal. «Não tive formação. Cresci muito rápido. Só havia juniores e eu joguei um ano nos juniores e outro nos seniores», recorda. O primeiro salto aconteceu aos 17 anos com a transferência para o Viseu e Benfica (IIIª Divisão). As boas exibições despertaram o interesse do Académico de Viseu, para onde se transferiu na temporada de 1988/89, realizando a sua estreia na Iª Divisão. Depois de quatro anos em Viseu, foi jogar na Académica de Coimbra (três épocas), antes de chegar à União de Leiria, onde permaneceu nove épocas. Esteve na melhor classificação da equipa, disputou uma final da Taça de Portugal e as competições europeias. Por último, jogou no Moreirense. João Manuel realizou mais de 250 jogos nas 10 épocas em que esteve no escalão principal do futebol nacional, tendo marcado quatro golos. O segredo para manter uma elevada regularidade nas diferentes posições do campo que desempenhava consoante as necessidades da equipa passava por «respeitar muito aquilo que eu gostava de fazer e era treinar e jogar bem», assevera.

Ricardo Cordeiro

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