A conversa mais medíocre que conheço é a do elogio da doença. “Eu sou diabética, eu sou doente percebe?, eu só cá venho na última”.
De facto, hoje vejo centenas de pessoas que são doentes do excesso de utilização da boca, do excesso de sedentarismo, do excesso de sofá e da falta de umas caminhadas. Como antes o cigarro e o álcool hoje, o pecado da obesidade mata que se farta. Pessoas com o abdómen demasiado distendido, transportam um mal-estar perpétuo e tomam dezenas de medicamentos. Mas não têm culpa, elas nunca são culpadas. São infelizes à maior potência, infernizam filhos e netos, mas são incapazes de reduzir o seu apetite. A maior doença que carregam é o enfartamento pós prandial e a obesidade. Comem “pouco” comparativamente, mas não gastam nada e por essa razão o pouco é muito ainda. São panças de meio metro, outras de metro e meio. Claro que lhes doem as costas, claro que têm dificuldade em dormir. Claro que precisam de máquina para a apneia de sono. Estas bombas relógio vão morrer de enfarte do miocárdio ou de AVC ou de complicações da diabetes. Caramba, esta gente não cuida nada da saúde e por essa razão falta-lhes o decoro de pelo menos recusarem falar da sua tragédia auto construída. Elas vão no autocarro a vociferar do SNS, elas maldizem o médico de família, elas inscrevem-se em todas as instituições de saúde no mesmo dia. Alguns vão ao Centro de Saúde e dali vão à Urgência. Muitos tomam 14 ou mais comprimidos e nunca duvidam desta loucura. A loucura é o seu estado de saúde construído com persistência e coerência até literalmente rebentarem com qualquer qualidade de vida. É a falta de vergonha da dependência. Nós devemos sonhar com a mente sã (já agora culta), o corpo são (já agora até tarde), a independência (quer física, quer monetária) e devemos sonhar com a saúde e nunca com a doença. Há um erro qualquer na construção desta mediocridade que transporta a boca ao centro da vivência. Há fatores propagandísticos, muito do que comemos são produtos inventados pelos homens. Há fatores viciantes e que alteram a vontade que incorporamos nos alimentos. Tudo isso é verdade, mas é indiscutível (como diz a minha mulher) que também há espelhos e força de vontade.
Por: Diogo Cabrita


