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A balda, debalde

Extremo Acidental

A ditadura morreu em Portugal há quarenta anos. A liberdade de expressão é a melhor criação nascida dessa morte. Da liberdade de expressão decorrem a opinião sem amo, o debate sem medo e a idiotice sem par.

Segundo o mais alto funcionário da União Europeia, o ensino em Portugal durante o Estado Novo era feito de uma “cultura de excelência”. Eu, que tinha dois anos no 25 de Abril, que estou obrigado pelo código deontológico do cronista a referir a minha idade nesse dia inicial inteiro e limpo, que devo fazer uma referência poética à revolução, que cheguei à escola depois de Nobre da Costa chegar a Primeiro-Ministro, sei hoje o suficiente sobre a escola de 1960 para poder concordar com o Senhor Presidente da Comissão. Se os historiadores e a minha família não se juntaram numa conspiração para me enganar, posso afirmar que a escola mas também toda a sociedade portuguesa dessa altura viviam numa forma particular de “cultura de excelência”, mais propriamente numa “cultura de Sua Excelência”.

Num ambiente onde se respirasse essa cultura de excelência, uma coluna de opinião como esta nunca existiria, o que mostra que a liberdade e a democracia também têm as suas falhas. Por exemplo, a excelência da censura impedir-me-ia de escrever as baboseiras que aqui vão escorrendo todas as semanas; e a excelência do ensino obrigar-me-ia a concentrar todo o meu trabalho intelectual na preparação das matérias em vez de perder tempo a escrever tais baboseiras.

Apesar das críticas, não julgo que Durão Barroso tenha referido a “cultura de excelência” de forma elogiosa. Desde que combateu revolucionariamente essa escola burguesa até ao seu mandato como Presidente da Comissão, toda a sua vida pública foi contrária à “cultura de excelência”, preferindo do modo explícito a “cultura da balda”.

Por: Nuno Amaral Jerónimo

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