Nascemos em 2000, em simultâneo no suporte em papel e digital, na mudança de século, na mudança de milénio, num tempo de ansiedade e metamorfoses – a Internet era utilizada por uma minoria (Berners-Lee criou o protocolo da World Wide Web em 1992), o correio eletrónico era uma raridade e os telemóveis (da TMN e da Telecel) já não eram uns tijolos mas quase. Ainda não havia smartphones e Zuckerberg tinha 16 anos e talvez já pensasse em arranjar fotografias de raparigas, mas ainda não tinha inventado o Facebook. «Dar vida ao interior» era uma das nossas mensagens, um “claim” que nos distinguia, num tempo em que pouco se falava de “interior” e quando se falava era apenas para discutir as assimetrias, a pobreza e o atraso endémico em que vivíamos.
N’O INTERIOR escrevemos sobre as taxas vergonhosas do analfabetismo (havia concelhos na região com mais de 25% da população analfabeta); sobre a pobreza que grassava escondida por detrás da vergonha; sobre os emigrantes que corajosamente partiam e queriam regressar mas não sabiam ao que vinham, quando vinham; sobre as aldeias que envelheciam e sobre os jovens que partiam; sobre as escolas com três ou quatro alunos que podiam fechar (e fecharam, primeiro as de três ou quatro alunos e depois as de 10 e de 20 alunos); sobre as propostas de Guterres (que 18 anos depois lidera a ONU, mas que na altura não sabia quanto era o PIB do país que governava) que promoveu a fiscalidade amiga do interior e, contrariando o preconceito lisboeta, instalou uma Faculdade de Medicina na Covilhã; sobre as mortes no IP5 e sobre os projetos de autoestradas, da A25 e da A23, que prometeram desencravar a região e aproximaram a Guarda da Covilhã; sobre a falta de médicos, sobre o fechos de centro de saúde, sobre novos hospitais (e sobre o «arrastar os pés» no hospital da Guarda até Sócrates liderar o governo); sobre empresas que encerraram e sobre os jovens que partiram… Durante 18 anos escrevemos sobre tudo o que de relevante aconteceu na região.
O INTERIOR afirmou-se como o maior jornal do distrito da Guarda, o de maior circulação e o que tem uma maior marca identitária na região. Organizámos debates sobre assuntos de interesse público (como a criação de comunidades urbanas), realizámos feiras do livro na Guarda (com milhares de livros e dezenas de ações culturais em paralelo – espetáculos musicais, teatro, escultura, xadrez, poesia…), promovemos conferências e debates (com Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia, Fernando Dacosta, J.M. Barata-Feyo, Fernando Alvim…), escrevemos, opinámos, entrevistámos, questionámos e contribuímos para uma comunidade mais informada, mais culta e mais desenvolvida. Ao longo de 18 anos, sem estigmas, sem preconceitos, sem medos nem euforias, procurámos honrar o nosso compromisso com os leitores, com todos os que, 18 anos depois, continuam a confiar n’O INTERIOR. O melhor Presente de Aniversário que podemos receber é, precisamente, celebrar 18 anos, chegar à “maioridade”, existir, merecermos a confiança dos nossos leitores e anunciantes – durante 18 anos: Obrigado!
PS: D. António dos Santos, Bispo Emérito da Diocese da Guarda, era uma personalidade notável. Tive oportunidade de privar com ele em alguns momentos, nomeadamente no contexto do secretariado diocesano da pastoral juvenil e nos movimentos juvenis, em especial dos Convívios Fraternos e também de conversar com ele sobre Frére Roger e a Comunidade de Taizé (onde fui “permanente”). Faz parte do meu património de afetos, da minha juventude e da grande Cidade Juvenil, de que fui um dos promotores (com o P.e António Carlos e muitos outros jovens extraordinários) e que teve em D. António um Bispo atento e colaborador. Nos últimos anos cruzei-me com ele de forma fugaz e distante no lar de S. João de Deus, na Guarda, onde, retirado e debilitado, mantinha a sua singular vida austera, introspetiva e livresca. Foi o último Bispo da Diocese da Guarda! Sobre ele digo sempre: Quando D. António saía à rua o trânsito parava! Eram outros tempos, mas também outras personalidades. Aquele Bispo dava-se ao respeito e era respeitado – em nome de Deus e por devoção dos homens. Paz à Sua Alma!
Luis Baptista-Martins


