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O Financiamento da Casa de Espectáculos da Guarda

Se apenas dispuséssemos de serviços que dessem lucro, não teríamos hospitais, universidades, caminho de ferro. Na Guarda, não teríamos Piscinas Municipais, Mediateca ou Instituto Politécnico. Não faria sentido investir numa nova biblioteca municipal e não seria certamente inaugurada no próximo fim-de-semana a casa de espectáculos da cidade. Quanto a esta última, tenho ouvido muitas criticas: vai ser mais um elefante branco, que irá degradar ainda mais as periclitantes finanças camarárias, não se justifica uma obra desta dimensão para uma cidade tão pequena, vai ter uma programação elitista e desfasada da nossa realidade social, é um pretexto para dar empregos bem remunerados a algumas dezenas de boys.

Descontemos, desde já, os argumentos que vêm da inveja ou da mesquinhez. Quanto mais pequena for a cidade, de maiores e melhores obras necessita para se elevar acima da mediocridade. O que se faz agora, não deve ser feito a pensar no pequenino que se é agora mas no grande que se pretende ser no futuro – ou então agachamo-nos no nosso buraquinho e continuamos a olhar de longe, com inveja e ressentimento, para Viseu ou Castelo Branco. Não me incomodam igualmente salários elevados ou que se dê trabalho a muita gente: antes pelo contrário, penso que é bom que se criem empregos e se ponha dinheiro a circular.

É verdade entretanto que pode haver problemas com o financiamento da casa de espectáculos, é verdade também que não é nem desejável nem correcto que um seu eventual desequilíbrio financeiro venha a agravar ainda mais as contas camarárias – embora seja aceitável que aí seja investido parte substancial do orçamento da Câmara para a cultura. Dizem-me que a Casa de Espectáculos da Guarda conta com várias receitas próprias para o financiamento das suas actividades e das duas despesas.

Em primeiro lugar o seu parque de estacionamento subterrâneo, que dispõe de várias centenas de lugares e vai estar disponível para o público em geral. Aqui tenho objecções: está demasiado distante do centro da cidade para ter as taxas de ocupação desejáveis, a não ser a preço de saldo; vai acabar por inviabilizar o parque subterrâneo do Jardim José de Lemos, ou então, a manter-se este, mais central, lá se vai a fonte de receitas…

Em segundo lugar, o Café Concerto. Nada a objectar, até porque vai ter à frente o Manuel Correia, um jovem da terra com formação académica na área da hotelaria e provas dadas.

Em terceiro lugar as receitas de bilheteira. Atendendo aos hábitos dos guardenses, não há que ter grandes expectativas por aí. Mas os hábitos alteram-se, sobretudo a partir do momento em que seja possível oferecer espectáculos de qualidade num espaço também de qualidade. Quanto ao resto, a responsabilidade será de quem planear a programação… Por outro lado, os guardenses deverão mostrar, com a sua comparência, que merecem as prendas que recebem.

Finalmente o mecenato. Há muitas e grandes fortunas no concelho da Guarda. Entre nós os ricos não têm o hábito de devolver à sociedade alguma da riqueza que têm em excesso. Lamentam-se com o peso dos impostos e acumulam. Não lhes ficaria mal aliviarem-se de parte dos seus milhões em benefício do sucesso da nova casa de espectáculos.

Por: António Ferreira

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