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O Papa Nobel

“Não tenhais medo. Abri as portas a Cristo.” Com estas palavras de coragem e desafio, Karol Wojtyla, dava início ao seu pontificado como Papa, em 1978. Desde logo demonstrou o seu carácter intrépido e lutador, que havia de marcar o seu trajecto impar em nome da Paz no mundo. E falar de Paz não é algo de abstracto, é falar dos homens. João Paulo II evidenciou sempre uma paixão pelo Homem e pela sua vida neste mundo terreno. Entendia que toda a ofensa à dignidade do Homem seria sempre uma ofensa a Deus que, à luz da Igreja, o criou “à sua imagem e semelhança”. E sabia que o homem só poderia atingir a sua plenitude, vivendo numa Paz baseada na verdade, justiça, na liberdade e no amor. Por isso lutou contra regimes e contra ideias atentatórias da dignidade humana. Viajou por todo o mundo como um peregrino levando a sua palavra de inconformismo e a esperança num mundo renovado. Muitas das suas viagens apresentaram um cunho polémico e mesmo desafiador.

Marcou definitivamente o percurso político do seu país ao apoiar veladamente a luta do sindicato livre “Solidariedade”, que mais tarde aglutinou um movimento popular contrário ao poder comunista e que chego ao poder. Foi o início de uma onda de mudanças pelo leste europeu. Em 1989, Mikhail Gorbachov foi recebido no Vaticano, num momento histórico de grande importância. Mais tarde caíram os regimes da Bulgária, Checoslováquia, Roménia e, em 1991, o da própria URSS.

Mas as mudanças não acompanharam a força dos sonhos. João Paulo II viu e falou desse desencanto durante sua viagem a Ucrânia em 2001, onde uma década de liberdade era ainda sinónimo de pobreza, e onde dois milhões de ucranianos tinham emigrado em busca de um novo mundo, de um novo sonho. Passou então a criticar o capitalismo sem regras que só enriquecia máfias e uma pequena parte da população, esquecendo os mais débeis e os que mais sofriam.

Também condenou o reaparecimento dos radicais movimentos nacionalistas dos Balcãs e não hesitou em aprovar uma intervenção militar por motivos humanitários na guerra do Kosovo e da Bósnia-Herzegovina. Da mesma forma que se opôs frontalmente contra a guerra do Iraque que considerou como ilegal.

Combateu os fanatismos religiosos, mas promoveu em Outubro de 1986, em Assis, a célebre Jornada Mundial de Oração pela Paz, que reuniu representantes de dezenas de religiões. Unidos, louvaram o único e verdadeiro Deus e assumiram o compromisso de manter vivo o diálogo ecuménico.

Em cerca de três décadas deixou um percurso humano e comovente. Mostrou ser um guerreiro da Paz, que nunca virou a cara às dificuldades, aos conflitos. Mesmo quando o seu corpo já não acompanhava a mente e a doença lhe tolhia os movimentos.

João Paulo II, durante anos foi candidato ao prémio Nobel da Paz. Mas pelos vistos, apesar do seu impressionante testemunho de vida, nunca o consideraram merecedor deste galardão que, até já laureou assassinos e terroristas. E alguém se lembra do vencedor do último ano? Do que fez? Da Sua importância? João Paulo II não precisou do Nobel para deixar a sua marca no mundo. Não precisou que meia dúzia de cabeças compradas pela hipocrisia da política internacional, evidenciassem o seu trabalho em prol da Paz. E a partir de hoje, para mim, o premio Nobel é um prémio de merda!

Por: João Morgado

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