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Sardinhas doces, o “ex-libris” da doçaria de Trancoso

Neste momento, haverá mais de cinco pessoas a confecionar sardinhas doces em Trancoso

O formato não deixa margem para dúvidas. Em Trancoso há sardinhas e são doces. Com um recheio de amêndoa, ovos e açúcar, envolto numa espécie de massa tenra que depois é frita e coberta com chocolate, esta iguaria continua a fazer furor e ninguém passa por terras de Bandarra sem comprar este doce conventual.

Estima-se que a receita tenha tido origem no séc. XVII, no antigo Convento de Freiras de Santa Clara (extinto em 1864), sendo hoje um dos “ex-ibris” da gastronomia local e até nacional. Em grande parte devido à divulgação feita pela Confraria das Sardinhas Doces de Trancoso, criada em 2011. «Nos primeiros anos divulgámos muito este doce. Esse era um dos nossos grandes objetivos porque a maior parte das pessoas de fora não conhecia», confirma a presidente Maria da Conceição. Na altura, percorreram o país, tendo levado o nome da confraria e de Trancoso de norte a sul. «Agora paramos mais um bocadinho, mas estamos a pensar arrancar em força já em setembro», garante a responsável, acrescentando que um dos planos futuros é tornar o produto mais uniforme. «Pretendemos que o produto, todo ele, tenha qualidade. Que a forma seja semelhante a uma sardinha, que o recheio tenha mesmo amêndoa e que tudo isso dignifique o produto em si. Vamos tentar reunir com pessoas para que as mais antigas ensinem as mais novas para conseguirmos que o doce seja aquilo que pretendemos», adianta Maria da Conceição, acrescentando que pretendem também retomar as conferências e tentar captar mais confrades.

O nome deste doce terá sido um tributo à sardinha, devido à sua escassez na região naquela altura, mas também ficará a dever-se à sua configuração – o seu formato é retangular com uma das extremidades pontiaguda e a outra em forma de rabo de peixe –, com dez a 15 centímetros de comprimento. Neste momento, haverá mais de cinco pessoas a confecionar sardinhas doces em Trancoso, mas ainda falta dar o salto para o mundo. «Isso ainda não está muito desenvolvido. Estivemos na FIL (Feira Internacional de Lisboa) duas ou três vezes e aí muita gente teve oportunidade de conhecer o produto, foi uma grande divulgação. O mesmo na FIT (Feira Ibérica de Turismo)», disse Maria da Conceição. Ainda assim, quem vai a Trancoso não terá dificuldade em encontrar esta iguaria: «Antes de iniciarmos a confraria era raro encontrar sardinhas, agora encontra-se facilmente», destaca a dirigente.

Na mira da confraria, além da divulgação, está a defesa deste doce. Em 2006, a AENEBEIRA – Associação Empresarial do Nordeste da Beira iniciou o processo de certificação desta sardinha como Especialidade Tradicional Garantida (ETG). Contudo, o pedido de registo continua à espera de luz verde, mas Maria da Conceição não duvida que essa certificação podia «ajudar» as sardinhas doces de Trancoso a atingir outro patamar. Para a popularização do seu fabrico e consumo muito contribuíram, já nos meados do século passado, doceiras como Maria Luísa Bogalho que, com a sua irmã, Maria Antónia, fundou em 1947 a pensão das “Bogalhas”. E ainda Maria do Céu, popularmente conhecida por “Céu do Doro”, que, entre os anos 40 e a década de 70, encantou os seus clientes com estas deliciosas doçarias.

As sardinhas doces de Trancoso terão sido criadas no séc. XVII

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