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Pisar o risco, correr o risco

Tresler

RISCO 1. As notícias não enganam. Vivemos em “securitização” total com toda a gente a querer “(as)segurar” tudo, com a margem de risco reduzida ao mínimo, com seguros para tudo e para nada. Lamentamos os agricultores que não seguraram as colheitas, em cada contrato há um seguro de crédito, de risco ou de outra coisa. Quando se trata de vida humana, ainda é mais flagrante o espírito de risco zero numa época que nunca conheceu dias tão seguros: mesmo uma realidade como a guerra, na sua dura crueza, é vista como não podendo infligir riscos excessivos sobre as populações ou sobre as guerrilhas inimigas, como se pudesse haver guerras limpas ou éticas abrangidas pelo seguro. Nas guerras “dignas” a sensação de fraqueza do vencedor fá-lo-á pagar mais tarde ou mais cedo, ficando a ideia de que dificilmente na sociedade ocidental se correm riscos que façam correr sangue, mesmo o dos outros. E, depois de tudo segurado e evitado, catástrofes, mortes, imprevistos, maldades, o mal estará à espreita: ele não se esgota, está por aí. Basta um kamikaze querer.

RISCO 2. A família afirma-se como instituição que, na sua condição de “concha de conforto” para crescer, nos é imposta pelo “mainstream” como o lugar do equilíbrio e da harmonia, numa espécie de “ética economicamente fundada” na necessidade social. Mesmo quando se noticiam divórcios ansiamos pelas reconciliações, como se esses reencontros fossem o contraponto real do nosso medo de sermos abandonados pelos outros. Basta ver as capas das revistas de sociedade para ver que a ideia de família não mudou nas nossas cabeças. Abandonar uma família é no entanto a condição do próprio crescimento, com a procura do amor e do mundo a aparecer como oportunidade de uma segunda iniciação. Mesmo quando sabemos que o (novo) amor e o (novo) mundo vão dilacerar, trazer mazelas, doer, é necessário partir, largar, mesmo magoar. Anne Dufourmantelle (A. D.), psicanalista francesa, defende a rutura como uma «atitude» de «campo aberto» que é preciso tomar na vida pelo menos uma vez, assumindo-a em vez de tolerar que paguemos um preço incomensurável sendo as vítimas dessa mesma rutura ou das «obrigações».

RISCO 3. A infância é o lugar da idealização que todos nos habituámos a construir desde o lugar de adultos. Mas ela não é bem esse mundo que pode ser desenhado por um álbum de fotografias que os nossos amigos e familiares folheiam e nós gostamos de pôr no Facebook. Ela pode ser o lugar da experiência da intensidade, da fé sem limites, dos segredos incomensuravelmente sagrados que passámos ou guardámos. Ou das deceções, violências e choques sofridos e mal digeridos. Ou do momento iniciático que quebrou essa mesma infância e a fez morrer. A infância pode ser esse espaço do excesso, da incoerência e da vivência que não é possível contar porque as palavras não chegam ou é «a única experiência metafísica que temos, sabendo que de um momento para o outro a nossa vida se vira» e onde vimos o «reverso do mundo», segundo A. D. Às vezes enterramos a infância que nos deixou marcas. Mas ela lá está para voltar quando menos a queremos ou para nos maravilharmos quando a desejarmos reler. Vale a pena arriscarmos voltar a ela.

RISCO 4. Prever o futuro é obra de visionários, artistas ou pensadores, raros e obscuros. O risco de uma revolução é sempre real mas pensá-la e planeá-la já não é tão previsível. É mais provável que aquilo que construiu a prosperidade e o consumo mecânico e multiplicado em objetos no mundo atual venha um dia a descambar em qualquer coisa que já não “funcione” e em que já não se “acredite”. Mas a revolução não voltará para o tempo passado, não utilizará como símbolo Zeca Afonso ou o 25 de abril, falará as linguagens novas. E não nos iludamos que a revolução possa aparecer sem devorar a sociedade que a produziu. Diz Dufourmantelle: «Consentir em perder tudo é isso que faz uma revolução e isso é raro, porque nós insistimos em guardar tudo e o estado das coisas alimenta-se desta substancial economia, deste lento devorar de nós por nós próprios». Por isso a autora defende que entrar numa revolução «em que tudo será talvez arrastado necessita de uma loucura, de uma visão mas também de uma solidariedade sem a qual nenhuma revolta inicia o que quer que seja». Estaremos já aí?

(Vale a pena ler os textos densos e profundos de Anne Dufourmantelle a partir das suas consultas de psicoterapeuta em “L’Éloge du Risque” – O elogio do risco –, Ed. Payot & Rivages, 2011)

Por: Joaquim Igreja

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