“Lolita” não é um livro pequeno, nem tampouco um livro grande, fica-se pelo meio (tal como a virtude) e os que se aventurarem neste cardume de estrelas serão recompensados. Disso, asseguro-vos.
Comecemos, então, pelo início que, neste caso, é cosido do lado avesso. Nas últimas páginas, Nabokov revela as suas intenções, mas esse epílogo é tão batoteiro quanto o prólogo. Nele, John Ray Jr. adianta que não tem dúvidas de que «Lolita se tornará um clássico nos círculos psiquiátricos». Esse prefácio fictício serve como uma preliminar das confissões de um viúvo que irá relacionar-se com uma ninfeta, isto é, a jovem com a candura de uma menina e a sensualidade de uma mulher. O livro está escrito na primeira pessoa, mas essa primeira pessoa – Humbert Humbert (H.H) – tem um “doppelgänger”. E assim duplo no nome e duplo na personalidade, H.H folheia «estas tristes memórias» como quem conserta a sua própria sombra. Porém, toda a lembrança erra porque acrescenta e subtrai aspectos que só existiram numa «realidade». Humbert Humbert socorre-se, portanto, do processo da escrita para recuperar o que já perdeu e, pelo meio, percebemos que os desabafos vão sendo suturados até resultarem nessa colcha de remendos estrambólicos e caóticos. Mas atentem que, em nenhum destes enleios, H.H tenciona escrever à Dolores Haze. Ele só quer caçar a sua Lo. Li. Ta.
Durante a empreitada, H.H tropeça na púbere Lo (também conhecida por Dolores Haze, Dolly, Lola, Lolita, Carmen ou Carmencita) devido a um outro fantasma da infância – Annabel Leigh: «Aquela menina com os seus braços e pernas litorais e a sua língua ardente ensombraram-me desde então… até que, enfim, vinte e quatro anos depois, quebrei o seu feitiço encarnando-a numa outra». Esse amor interrompido avança e H.H dá conta de que umas vezes é homem, outras vezes é monstro, umas vezes procura ninfetas, outras há em que Lolita o lança para o abismo e, nesse escaninho, ora confiante, ora desesperado, assomam-lhe as memórias de uma meninice esfarrapada. A noite escurece, Lolita adormece e os Caçadores Encantados despertam. Será que McFate estará do seu lado?
Todos sabemos que há várias formas de ler um livro e em “Lolita” isso sente-se ainda mais. Chocante, pornográfico e imoral são alguns dos adjetivos que os leitores mais incautos utilizam para descrever o romance, mas Nabokov – tal como outros mestres russos – mostra o que fica para lá do óbvio e as reações são tão diversas que chegam a divertir: há os que recriminam o comportamento de H.H que viola a menina cândida, proibida e imaculada; há quem tente descortinar as brechas da mente humana; outros dizem que é «a Velha Europa a perverter a jovem América»; e depois há os que, não conseguindo resistir à escrita sedutora de Nabokov, chegam a simpatizar com o desejo de um narrador que, segundo as regras da boa conduta, será nocivamente execrável. Ainda assim, se quisermos entrar nas vísceras da interpretação pura, compreendemos que o erotismo de Nabokov não está nas cenas sexuais, mas sim no confronto entre o permitido e o proibido e no conflito que daí resulta. Para os que ainda não localizaram este arquipélago, deixo um único aviso: desfaçam-se dos lugares-comuns pois, ainda que o conteúdo vos pareça concupiscente, há histórias que são muito mais do que o seu enredo e Nabokov, tal como Hitchcock, parecia querer lapidar a forma para que o bocejo fosse suprimido durante a exibição. Talvez seja por isso que, neste formigueiro, há toda uma infusão de prazer que arrebata até a alma-lama mais recatada.
Melanie Alves
*A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
**Pode visitar: www.aosomdapele.wordpress.com


