Os acontecimentos dramáticos na Tailândia capturaram a atenção e a compaixão do mundo inteiro à volta da vida de 13 jovens, presos numa gruta inundada, sujeitos à adversidade de fenómenos que a evolução da humanidade ainda não consegui controlar. A Mãe Natureza, indiferente aos avanços técnicos e científicos, dita as suas regras, tanto hoje como há milênios, e continua dona do destino de vidas, ditando fins trágicos ou finais felizes.
Depois do intenso aproveitamento mediático que colocou milhões de pessoas coladas aos ecrãs das televisões, era inevitável existirem aproveitamentos mediáticos e publicitários. Agências de seguros de vida, equipamentos de mergulho, kits salva-vidas ou livros de autoajuda, por mais bizarro que fosse, tudo seria de esperar.
Mas quem, no meio da desgraça, se iria lembrar de promover um qualquer serviço digital de um sistema de saúde que atua a mais de 10.000 quilómetros do local do acontecimento? Surpreendentemente, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) lembraram-se de usar a desgraça de 13 jovens para promover um aplicativo do MySNS para smarphone.
A última coisa que esperaríamos é que este acontecimento doloroso fosse aproveitado para publicidade a uma aplicação informática. Ainda por cima, do Serviço Nacional de Saúde. Numa campanha publicitária divulgada pelos SPMS podemos ler: «Tenha cartão da atividade física da mySNS e seja tão forte como os jovens da Tailândia», em pano de fundo um desenho de mergulhadores a nadarem numa gruta por entre estalactites e estalagmites.
Será que nos podemos permitir tudo? Que podemos desrespeitar o sofrimento alheio, mesmo que localizado no outro lado do planeta? Até que ponto podemos aproveitar uma desgraça simplesmente por poder ter efeito mediático? Julgo que há limites que nunca deveremos ultrapassar.
Tudo isto poderia parecer inocente não fossem os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde a entidade responsável pela informatização do SNS, uma área fundamental da comunicação entre profissionais e entre profissionais e doentes. Quando um organismo do Ministério da Saúde perde o sentido do respeito e da decência, diz muito sobre o seu papel e sobre o impacto que tem na humanização da Saúde.
Não deve valer tudo. Não vale usar os sentimentos de compaixão para vender um qualquer aplicativo informático. Não vale a insensibilidade e o aproveitamento publicitário a qualquer custo. Mas numa sociedade em que o próprio ministro da Saúde desvaloriza o sofrimento humano ao assumir a sua indiferença pelos «casos pontuais» dos doentes em dificuldade que vão acontecendo pelo país, então a incursão do SNS pela Tailândia não passa mesmo de uma estratégia publicitária de um profundo do mau-gosto.
Por: Carlos Cortes
* Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos


