Com cerca de 40 anos de história, o Instituto Politécnico da Guarda (IPG) alcançou no último ano letivo um dos melhores resultados de sempre: mais 1.000 novos alunos e teve cerca de 700 candidatos internacionais.
Que a região se tem esvaziado dia após dia ninguém duvida, mas o que muitos não sabem é que o Instituto Politécnico da Guarda (IPG) tem sido uma alavanca na economia local com a captação de estudantes nacionais e internacionais.
No último ano letivo o IPG registou uma das maiores enchentes com mais 1.000 novos alunos nas fases de acesso e teve cerca de 700 candidatos internacionais – sendo que desses apenas 427 foram admitidos e 158 se matricularam em licenciaturas, TeSP e mestrados. Os esforços para contrariar o “inverno demográfico” da região são visíveis e, por decisão do Ministério da Ciência e do Ensino Superior (MCTES), as instituições de ensino superior (IES) do interior – como é o caso do IPG – passaram a ter a possibilidade de aumentarem em cinco por cento as vagas de acesso. Na Guarda, o Politécnico optou por fazer «um ligeiro aumento», de cerca de dois por cento, nalguns cursos como Informática, Comunicação e Relações Públicas, Gestão e Marketing, adianta o seu presidente. «Entendemos que não vale a pena estarmos a aumentar vagas, por exemplo em cursos como Engenharia Civil ou Engenharia do Ambiente, quando sabemos à priori que não iremos ter candidatos», justifica Constantino Rei, para quem «aumentar por aumentar não tem nenhum interesse para a instituição».
E para evitar um decréscimo na capacidade das instalações e dos recursos humanos, o IPG fez outra escolha: manter as vagas em Enfermagem. «Já estamos no limite da nossa capacidade. Estaríamos a prejudicar a qualidade de ensino em detrimento da quantidade», afirma o presidente. Mas, tal como foi avançado por O INTERIOR, a UBI aproveitou na totalidade a vantagem que tem sobre as IES do litoral e vai ganhar mais 62 vagas no concurso nacional de acesso, passando das 1.245 do ano transato para as 1.307. Algo que poderá afetar o ingresso de estudantes no Politécnico guardense: «É evidente que os candidatos que não forem colocados em Lisboa ou no Porto ocuparão as vagas da UBI e de outras universidades. Só depois é que poderão sobrar alguns que venham para o IPG», acredita Constantino Rei, considerando que a medida do Governo «não vai produzir efeitos» nos politécnicos do interior. «Não estou à espera que o efeito para a Guarda seja muito negativo, talvez seja neutro, mas não será positivo», sublinha.
Futuro do ensino superior no interior olhado com algum pessimismo
«Se não houver medidas mais efetivas, não estou muito otimista quanto ao futuro do ensino superior no interior», confessa Constantino Rei, pois se não há crescimento «as instituições terão menos alunos, menos funcionários, menos professores e menos capacidade de intervenção com as empresas e instituições da região».
E a principal dificuldade do IPG tem precisamente a ver com as consequências dos problemas demográficos: «A Guarda já teve cerca de 4.000 a 4.200 alunos. Portanto, estar nesta altura com cerca de 3.000 significa que em duas décadas perdemos cerca de 30 por cento do número de estudantes», constata Constantino Rei, afirmando que «nenhuma instituição sobrevive sem alunos». Mas há muito que o “inverno demográfico” ameaça chegar e o presidente não duvida que são precisas «mudanças estruturais significativas» que revertam essa tendência. «Dentro de dois ou três anos, todas as instituições de ensino superior do interior vão ter um decréscimo significativo de alunos», alerta Constantino Rei.
Politécnicos do litoral decidem não aumentar vagas
Após a decisão do ministério, o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) propôs uma diferenciação das IES a três níveis: as que estão localizadas no interior, numa zona intermédia ou nas regiões de Lisboa e Porto.
«Deste modo, defendeu-se que as IES localizadas no interior deveriam poder aumentar o número de vagas até um máximo de cinco por cento, com referência ao número mais elevado nos anos letivos 2015-2016, 2016-2017 e 2017-2018, nas áreas 42 (Ciências da Vida), 44 (Ciências Físicas), 46 (Matemática e Estatística), 48 (Informática) e 52 (Engenharia e técnicas afins). Já as restantes, que não se encontravam localizadas nas regiões de Lisboa e Porto, não deveriam aumentar o número de vagas», é referido pelo CCISP. Esta proposta foi declinada pelo MCTES, mas os politécnicos e escolas não integradas localizadas no litoral decidiram, por unanimidade, não aumentar as vagas no concurso nacional de acesso, salvaguardando-se as áreas das Tecnologias de Informação, Comunicação e Eletrónica. Uma atitude «de louvar», segundo Constantino Rei, para quem a medida do Governo «acaba por ter efeitos para as outras instituições do litoral e não propriamente para as do interior».
Atração dos jovens é assegurada pelo IPG, mas fixação não
O trabalho de captação que tem sido feito pelo IPG não chega para fixar os jovens na cidade “mais alta” após terminarem o curso.
«Cumprimos a nossa responsabilidade e a nossa obrigação, que é trazer jovens para a região», declara Constantino Rei, acrescentando que se os alunos não tiverem condições para ficar por cá «ou vão para o seu país ou para outras zonas». «Criar condições para que eles se fixem já não depende apenas de nós. Aliás, eu diria que já depende muito pouco de nós, depende muito mais da resposta da própria economia não só a nível regional, mas também em termos nacionais», defende o presidente do IPG. No entanto, a Guarda também não terá capacidade para “absorver” todos os estudantes que se formam no IPG: «Toda a gente sabe que só é possível fixar pessoas se houver emprego e, portanto, aquilo que é necessário é criar emprego», alerta Constantino Rei.
Do que não duvida o presidente do Politécnico é que a instituição mexe com a vida económica da cidade. «Dos estudos feitos, posso dizer que, só do ponto de vista económico, cada euro investido numa instituição de ensino superior retorna para a sociedade, através dos consumos dos funcionários, alunos e professores, uma média de cerca de cinco euros», aponta o professor de Economia. De resto, «os centros mais dinâmicos em termos populacionais são aqueles que estão ligados a IES», sublinha Constantino Rei.
Alunos internacionais asseguram continuidade de cursos
A aposta do IPG é evidente: captar mais estudantes internacionais. Esse trabalho foi visível no ano letivo anterior quando cerca de 700 alunos estrangeiros se candidataram ao Politécnico guardense.
«Se não fosse essa aposta teríamos cursos que, nesta altura, já estariam encerrados», refere o presidente do IPG. Desses 700 candidatos apenas 427 foram admitidos, tendo-se matriculado 158 jovens, distribuídos por licenciaturas, TeSP e mestrados. Mas nem todos os países estão ao alcance do Politécnico, que limita a sua ação a países de língua oficial portuguesa pois «não temos condições para oferecer cursos em inglês», lamenta Constantino Rei. É por isso que a “luta” do IPG se dirige para Cabo Verde, Brasil e São Tomé e Príncipe: «Estamos a tentar aumentar o esforço para o Brasil porque sentimos que, apesar de tudo, têm condições mais favoráveis para se manter cá», reconhece o responsável, sublinhando que a divulgação neste país é feita através da presença em feiras internacionais. Já em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, «temos feito visitas locais e protocolos com as Câmaras Municipais», referiu.
E o que é feito para “caçar” os estudantes nacionais? «De janeiro a junho fazemos centenas de visitas e participação em feiras, nomeadamente em escolas profissionais, privadas e públicas, onde divulgamos a nossa oferta formativa, fazemos demonstrações e atividades para fomentar nos jovens o interesse de estudar no IPG», responde Constantino Rei, destacando que a região Centro/ Norte é onde concentram todos os esforços. «Não vale a pena desperdiçarmos recursos a captar estudantes de Lisboa ou do Sul porque eles, historicamente, não vieram», considera. Sobre o que leva os jovens dessas regiões a evitar o interior, Constantino Rei acha que a escolha das IES é «muito pouco racional» e que a inexistência de certos cursos na Guarda é outra das razões: «Como em Lisboa ou no Porto existe toda a tipologia de oferta, não há, tirando uma ou outra exceção, grandes motivos para vir. Eu diria que é residual o número de estudantes que olha para a qualidade das instituições», afirma.
Sara Guterres


