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A bancada

Ao atravessar a segunda porta da Torre dos Ferreiros, já livre da sombra das casas da rua da Torre, o manto branco daquela manhã de Natal ganhou outro brilho. Incapaz de resistir ao apelo da imensidão, soltei a mão da minha irmã e mergulhei naquela fofice húmida. Deitada no chão, impulsionei o corpo, conseguindo ir até à relva do cruzeiro em frente à Misericórdia a rebolar na neve. Atrás de mim, a minha irmã, entre tombos e escorregadelas, gritava-me para parar, mas mesmo que lhe quisesse dar ouvidos (não era o caso) a força da gravidade não deixava. Quando por fim conseguiu alcançar-me já eu me tinha levantado e sulcado a neve até ao muro onde ficámos a apreciar o silêncio único dos nevões guardenses.

De há uns anos para cá, talvez por já ser raro atravessar as portas desertas da Torre, de cada vez que o faço, evoco esses natais em que, depois de abrir todas as prendas deixadas pelo menino Jesus no sapatinho lá de casa, corria para casa da avó buscar o que lá não coubera. Para além de, nessa corrida, contar sempre com o “apoio” extra das bolachinhas de manteiga das “meninas pasteleiras”, um bocado mais velhas do que a minha avó, parecia-me, dos rebuçados de caramelo da D. Maria do Carmo do coronel, major, ou coisa que o valha, Vitória, dos beijinhos da Sra. Zandira, da madrinha Graça, da madrinha Berta que, por serem madrinhas dos tios e pai, eram nossas também.

Claro que não são só recordações boas de infância as que me acometem ao passar por ali, há também o descer penoso das escadas da Misericórdia e o percorrer a calçada de paralelos até ao cemitério para, não sei como, o coveiro arrumar mais um caixão na campa dos bisavós e respetiva estirpe.

Ora, por o passado estar assim, tão arrumadinho, é com o futuro que me inquieto. Quando eu morrer, se bem que os homens que preferem esperar pelo cortejo fúnebre sob as tílias em frente à porta da igreja o possam fazer comodamente sentados na bancada que ali vão construir, caso isso aconteça no inverno, espero que não haja gelo. Não vá o carro funerário derrapar em direção à boa da bancada e matar mais alguém que por ali se quede sentado. De igual modo me inquietam outras procissões que, não se inscrevendo no inverno do calendário, podem sempre coincidir com uma geada a destempo.

Evidentemente que, se a construção da tal bancada é para privilegiar os peões, estou completamente de acordo. Estou sempre de acordo com essas coisas de privilegiar peões e assim. Aliás, penso mesmo que quando se sentirem assim, tão privilegiados, os bons dos peões hão de voltar a circular por ali sem ser apenas nas procissões e funerais. Se não for para circular, ao menos que seja para se sentar na bancada a apreciar as linhas macias da fachada da Igreja. Claro que terão de se cortar aquelas tílias! Sim, sim parece-me bem construir uma bancada no largo da Misericórdia. Há quem diga que é para a cidade evoluir, ficar mais moderna e atrair turistas e empreendedores, isso tudo.

Para mim significa só o cortar do cordão umbilical que me prende à cidade onde nasci. Com a mesma perícia com que o coveiro vai arrumando a minha estirpe na pequena sepultura, vão-se arrumando também os locais da minha geração e anteriores. Obviamente que ainda não me deu para viver de recordações, sentada numa bancada à sombra. Por isso só me falta decidir em qual dos litorais vou morar, daqui a um ano, ou dois, no máximo. Talvez no do Sul…

Por: Fidélia Pissarra

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