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Marx – 200 anos depois

Agora Digo Eu

Os 200 anos do nascimento de Karl Marx são um bom momento para perceber que o pensador foi um dos principais arquitetos da atual ciência social, pois, goste-se ou não, as condições económicas e a luta de classes foram e ainda são agentes transformadores da sociedade. E se para Hegel nada no mundo é estático e da realidade faz-se filosofia, já Marx inverte a dialética hegeliana colocando o tema do movimento histórico que constitui o mundo, fazendo a filosofia incidir sobre a realidade.

Marx debatia, na sua tese de doutoramento em Filosofia “Diferenças de filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro”, as teorias entre o atomismo e a felicidade numa análise crítica que mais tarde usou para deduzir que a religião «é criada pela fabulação dos homens» e, como é uma situação corrente do espírito, irá defini-la como o «ópio do povo». Segundo Friedrich Engels, no discurso fúnebre daquele que foi considerado apátrida, «ele lutou com uma tenacidade e um sucesso com quem poucos puderam rivalizar. Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado do seu tempo. E morreu amado, reverenciado por milhões de trabalhadores revolucionários e embora possa ter muito adversário não teve nenhum inimigo pessoal».

Com a frase que se segue, Marx define tudo aquilo que é designado historicamente por marxismo: «Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o carácter desses limites».

Segundo Roman Rosdolsky, muito da agenda de Marx ficou por desvendar, pois, além de “O Capital”, poderia ter sido acrescentado um livro sobre o Estado, outro sobre o trabalho assalariado e outro sobre a globalização.

Duzentos anos passados e algumas perguntas colocam-se: O que é ser marxista? Tem a esquerda capacidade de propor um novo projeto político mesmo percebendo a dificuldade de enfrentar o presente ciclo político?

As respostas só podem ser estas: A esquerda pode e deve reformular-se, entendendo os conceitos das atuais transformações económicas, sociais e políticas neste mundo globalizado, deixando de viver na superioridade da gestão da coisa pública, pois se o não fizer será vencida pelos liberais que vão sempre perguntar o que é mais eficaz: o privado ou o público.

A falência de todo o sistema soviético trouxe ao de cima a “contrarrevolução” liberal, qual balão de oxigénio, que após a crise demonstra toda a sua fragilidade numa política condenada ao fracasso. O atual papel da esquerda é, sem dúvida, propor uma nova metodologia capaz de ultrapassar todas as frustrações individuais, transformando-as em exigências coletivas, pois se o liberalismo fez do seu combate a individualização, a esquerda terá agora o papel de reconstruir todo processo reivindicativo coletivo.

E a reflexão determina que a esquerda atual vai ter de moldar-se exigindo outro e melhor destino tendo por base o estudo e a compreensão da História.

Duzentos anos depois do nascimento de Marx percebe-se que o mundo evoluiu, sendo que o marxismo, enquanto doutrina política, continua atualizadíssimo e, sem querer falar em revisionismo, sempre direi que a esquerda europeia assemelha-se cada vez mais ao milenar iogurte.

É que, além dos bebíveis, existem ainda o de pedaços e o de aromas. Em Portugal com a bendita da geringonça passou-se a utilizar e a consumir este último. Com a particularidade de não ser genuíno. A esquerda portuguesa parece ter assumido definitivamente a marca branca.

Por: Albino Bárbara

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