Há cartas e cartas. Há cartas pessoais, de negócios, anónimas e até de amor.
Comecemos por estas últimas. Recordam-se seguramente daquela estrofe da velha cantiga do nacional cançonetismo interpretada por Tristão da Silva, e mais tarde por Tony de Matos e Francisco José, “Cartas de amor quem as não tem”. As cartas de amor são uma coisa deveras interessante ou não fossem cartas de amor. Se calhar é por isso que o carteiro toca sempre duas vezes. Todos nós já trocámos cartas de amor, contendo palavras apaixonadas, delicodoces, o que nos torna verdadeiros atletas na arte do arco e da flecha.
Dizia Brecht que todas as coisas são ridículas. As cartas de amor, depois de lidas e relidas, são infalivelmente ridículas e, olhando para as outras, para as tais que (não) têm autor, que não têm alma, sim as tais denúncias anónimas, cujo assunto se resume, na maior parte das vezes, a chavões e acusações avulsas (excetuo algumas situações que envolvem múltiplos riscos). Perplexo, questiono-me como há gente que se entretém com o simples objetivo de tirar partido do seu ridículo conteúdo, percebendo que do alto do seu pedestal está por detrás alguém de pança arredondada pelo orçamento, cheio de tiques e repeniques, quase ditatoriais, apreendidos, na maior parte das vezes, em cardápios ultrapassados, e a quem já ninguém entrega o voto, escondendo a distância mínima de uma cúmplice proximidade, onde é visível e notória a falta de escrúpulos, vindo ao de cima a má formação e o sentimento doentio da inveja.
Muitos dos seus autores não são mais que portadores de sonhos frustrados, cobiçando apenas a felicidade alheia, destruindo com o seu gesto quem efetivamente está feliz. Orwell, no “Triunfo dos Porcos”, explica perfeitamente os atos sujos e cobardes daqueles que, julgando-se donos, senhores e Reis da quinta, não passam de arrogantes, prepotentes, frustrados e medíocres onde o appart já lhes conferiu os tachos considerados necessários para a obtenção do único título partidário de que se podem orgulhar “A ordem de mérito evidente”, faltando apenas acrescentar que todas estas pretensas ambições não são acidentais nem sequer hipócritas, encaixando, todas elas, num processo cultural resultante de uma maneira muito própria de ver o mundo. Einstein sempre disse: «O mundo é um lugar perigoso».
Estes polícias do pensamento gostam efetivamente de meter o bico naquilo que (não) lhes diz respeito tentando levar tudo à frente numa berraria louca, que, no alto do seu palanque, às vezes até no das ondas hertezianas, tentam caçar bruxas e nas suas teses tenebrosas de militantes de segunda, reina, apenas e tão só, a paz podre, empertigados pelo conhecimento profissional, pelo ego, pela inveja e má formação, planeiam aniquilar todos os outros num autêntico e manifesto jogo de interesses, pouco se importando com a ética, borrifando-se para a amizade, para princípios e valores onde apenas conta a defesa do seu umbigo e daqueles que coabitam nas esferas que consideram de influência.
Cartas, cartas e cartas e até de amor, quem as não tem. A última missiva que enviei, já lá vão três meses e meio, foi ao Pai Natal. Pedia eu ao bom do velhinho nórdico que nos concedesse Saúde, Amizade, Harmonia, Tolerância, Tranquilidade, Solidariedade, Fraternidade, Liberdade e Paz. Acreditem que vou todos os dias à caixa do correio à espera da resposta que, pelos vistos, tarda em chegar.
No final deste ano voltarei a formular os mesmos pedidos e, se a carta do santo nunca chegar, viverei na esperança que um dia a mentalidade mude, que os protagonistas sejam outros e muito melhores e, o mundo seja efetivamente mais justo, mais livre e mais fraterno.
Por: Albino Bárbara


