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«O jornalismo está hoje melhor que no meu tempo, mas parece-me que está mais condicionado»

Cara a Cara – Emílio Aragonês

P – O que significa esta homenagem do Rotary Club da Guarda?

R – É uma honra muito grande lembrarem-se de mim ao fim destes anos, não contava, porque como os anos vão passando – tenho quase 84 anos –, chega-se a uma altura em que a gente prefere ir embora. É também uma grande emoção e estou feliz porque é uma oportunidade para ver os amigos, a família e os meus colegas jornalistas – porque ainda sou jornalista, embora reformado – que já não via há muito tempo. Agradeço naturalmente ao Rotary Club da Guarda, que quase desconhecia, e julgava que era uma entidade elitista. Mas verifico agora que tem uma obra e um serviço social na comunidade bastante bom por aquilo que tenho lido nos últimos tempos. Também não contava que os meus colegas se lembrassem de cá estar, é uma grande emoção. E fico com pena de não ver aqui alguns amigos a quem pedi para não virem…

P – Porquê?

R – Porque queria que esta homenagem fosse a coisa mais simples possível, mas a direção do Rotary Club entendeu que não, pelo que tem que ser à maneira da maioria.

P – Também é uma oportunidade para recordar a carreira de Emílio Aragonês?

R – É uma carreira muito longa, aliás, nem sei ao certo quantos anos foram, serão talvez mais de 50, mas sempre na Guarda. Durante muitos anos fui jornalista com carteira convencional, uma vez que tinha outras atividades profissionais, e há mais de trinta anos que tenho a carteira profissional. Sempre me considerei jornalista, passei por vários órgãos de comunicação social local e nacional e mantive-me fiel aos media desta cidade. Para mim, o trabalho na comunicação social da Guarda, nomeadamente na Rádio Altitude e no jornal “A Guarda”, vale mais que os anos que passei como correspondente do “Jornal de Notícias”, da Rádio Renascença ou do pouco tempo em que colaborei com os semanários “Expresso” e “Tal & Qual”. É um final de carreira, de vida até, que me marca bastante e só espero que consiga estar aqui até ao fim.

P – Ainda hoje tem uma grande legião de fãs. Como convive com essa fama após deixar o jornalismo?

R – Há pessoas que ainda se lembram de mim e fazem questão de me cumprimentar quando me encontram na rua ou no quiosque onde vou comprar os jornais, e isso é sempre bom. Na altura, quando trabalhava, diziam que eu tinha uma voz romântica que fazia adormecer as ouvintes quando os programas eram à noite. Mas depois de me conhecerem as fãs ficavam desiludidas (risos)…

P – Como vê o jornalismo atual? Continua a acompanhar…

R – Sim, claro. Leio todos os dias dois jornais diários e três semanários da Guarda. Na minha perspetiva o jornalismo está hoje melhor do que no meu tempo, mas parece-me que está mais condicionado em termos económicos e até de pressão política. Por aquilo que consegui aprender, tive muitos desgostos porque talvez fosse frontal demais. Atualmente houve coisas que alteraram muito o jornalismo para melhor e houve outras para pior, claro, mas não quero falar nessas. Em termos globais, o jornalismo progrediu muito e dá prazer ler e ouvir as notícias. Mas também sinto algum desgosto com certas situações. Por exemplo, se o nevão que caiu na Guarda [no sábado] fosse há 25 ou 30 anos às 7h30 as pessoas estavam informadas que havia estradas cortadas e outras transitáveis. Hoje não há esse serviço, é o serviço de agenda e pouco mais.

P – Qual é a melhor recordação da carreira? Qual foi o grande momento que marcou Emílio Aragonês?

R – Esta, por exemplo. Isto não é vaidade, mas já fui homenageado várias vezes. Tenho a medalha de ouro do Governo Civil, fui alvo de uma homenagem por parte dos jornalistas da Guarda que reuniu quase 300 pessoas, tenho a medalha de mérito da Câmara Municipal, e um reconhecimento do presidente da Assembleia da República, na altura Almeida Santos… São muitas recordações e tenho medo de falhar algumas. Mas tenho sobretudo muitas saudades da convivência com os meus colegas e dos bocados que passei a fazer reportagem por este distrito fora.

Perfil:

Jornalista (aposentado)

Idade: 83 anos

Naturalidade: Portalegre

Currículo: empresário do ramo comercial, jornalista da Rádio Altitude, correspondente do “Jornal de Notícias”, Rádio Renascença, “Tal & Qual” e “Expresso”. Mais recentemente colaborou com a Rádio F, na Guarda. Foi dirigente associativo na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egitanienses e da Associação Desportiva da Guarda.

Hobbies: ler jornais, passear

Emílio Aragonês

Sobre o autor

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