Ninguém é realmente contra o progresso, nem os nostálgicos, como escreveu Pedro Mexia (in Revista do “Expresso”), apenas queremos que as nossas histórias não terminem e, bastas vezes, manifestamos o nosso desagrado, a nossa discordância, por vermos mudar a identidade de tanta coisa que faz parte da nossa memória.
Ao vaguear pelo centro da cidade da Guarda, e enquanto tento perceber a intervenção que se faz no Jardim José de Lemos, regresso às leituras estivais e, nas “Vinte horas de Liteira”, de Camilo Castelo Branco, encontramos a melancolia face à mudança descrita pelo lamento da voragem do progresso condenar à extinção a velha liteira. «A liteira sacrificada, a liteira dos dois machos pujantes e das cinquentas campainhas estrídulas, essa é a que se vai de uma assentada, desfeita à serra e enxó para remendos de ignóbeis carrinhos e carroções. Esta é que é a liteira das minhas saudades, porque se embalaram nela as minhas primeiras peregrinações; porque, dos postigos de uma, vi eu, fora das cidades, os primeiros prados e bosques e serras empinadas; porque o tilintar das suas campainhas me alegrava o ânimo, quando a toada festiva me interrompia as cogitações da tarde por essas estradas do Minho e Trás-os-Montes (…)» (prefácio).
É a dimensão do nosso património de afetos. É o desejarmos que as nossas histórias não terminem. É o recordar a nossa história e a história do coletivo de que fomos parte. É por isso que tantos argumentos e diferenças se esgrimem sobre a intervenção no espaço público, no território da afetividade, nos lugares que são de todos. É por isso que tanta celeuma tem criado o projeto de requalificação do parque municipal da Guarda, onde as árvores têm de ser protegidas, mas onde a vedação não faz falta a ninguém. Como será a da Rua do Comércio ou a do largo dos táxis. Mas é no jardim que me concentro. É ali que a nostalgia sempre impediu mutações necessárias.
Em 2000, num especial dedicado ao Dia da Cidade da Guarda, apresentámos neste jornal um conjunto de sugestões de intervenção pública para qualificação da urbe. Entre outras, sugerimos a construção de um silo-auto subterrâneo no José de Lemos. Identificámos as necessidades «presentes» (há 15 anos) e futuras em termos de necessidade de um estacionamento central e que permitisse a redução de viaturas aparcadas nas ruas do centro urbano, com eficácia urbana e respondendo às necessidades dos guardenses e dos visitantes. Produzimos memória descritiva e apresentámos desenhos, da autoria dos arquitetos e nossos colaboradores Cláudia Quelhas e João Cládio Madalena, exprimindo de forma clara aquela que deveria ser uma opção estruturante para a cidade. Com alguma surpresa, recebemos várias manifestações de repúdio à ideia, não porque não houvesse necessidade de procurar uma boa solução para o estacionamento da Guarda, mas porque o Jardim encerrava uma dimensão afetiva, que também tem de ser considerada, que deve ser considerada. A então presidente da Câmara da Guarda, Maria do Carmo Borges, chegou mesmo a dizer-nos que muitas pessoas lhe manifestaram desagrado com essa hipótese porque, «naqueles bancos, namorámos muito»… O sentimento era genuíno, era o tal património de afetos, era a memória, era o sentir que perdíamos o nosso mundo enquanto envelhecemos. O jardim podia estar decrépito, ser antiquado, “ancien regime”, mas dava corpo às histórias das pessoas que ali regressam a cada verão para apanhar o sol e evocar nostalgicamente os tempos idos. Por isso, há 15 anos nada mudou. E 15 anos depois, com mais sensibilidade ambiental e menos arrojo, discute-se a requalificação quando porventura se deviam discutir soluções estruturantes, que permitissem o melhor aproveitamento do solo – e porventura a construção de um parque de estacionamento subterrâneo que resolvesse o problema da falta de estacionamento no centro de cidade e contribuísse para as ruas estarem menos ocupadas por carros e combinar com uma nova arborização e zona de lazer, não para substituir o território de afetos mas para lhe dar outra vida, inclusiva, duradoura e de futuro.
Luis Baptista-Martins


