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Múltiplas “Flores” contidas numa só flor

Opinião – Ovo de Colombo

Alguns autores chegam até nós, não pela fotografia de uma recordação antiga, alguns surgem-nos pela simples necessidade de convocar a verdade emotiva. Assim aconteceu com “Flores”, “O Pintor Debaixo do Lava-Loiças” e creio que assim possa vir a acontecer noutras páginas de Afonso Cruz.

Atrevermo-nos a tatear as palavras de Afonso Cruz é semelhante a esse exercício que os iniciantes das aulas de fotografia têm de praticar – o de olhar para fora, olhar como se ainda estivéssemos a aprender a conduzir-nos no corpo da troposfera. Quando me pus a desfolhar as primeiras páginas de “Flores” percebi que estava perante um livro que poderia caber na vida de muitos portugueses. Como sempre, o ponto de partida de Afonso Cruz era esse mesmo – a vida: «Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias».

Aqui encontramos, por um lado, um homem sem memórias (Hulme), mas que assume uma relação muito forte com a tragédia, a injustiça social e os grandes valores; no sentido contrário está o vazio do narrador que trilha o seu presente numa viagem melancólica, como se a rotina fosse uma anestesia que só pode, ou deve, ser curada pela reconstrução das memórias do outro. E haverá mais molesto universo do que o de habitar uma casa sem memórias? Quem poderemos ser nós sem esse nosso passado?

À medida que o protagonista fica empenhado em ajudar o vizinho idoso – Hulme – ele compreende que a sua própria vida, adormecida pela rotina, segue um trilho impossível. Assim o descreve esta passagem: «E agora um Natal assim, o ar não poderia estar mais carregado de tristeza, um grego que não chora, um homem que não se lembra de ver uma mulher nua, uma menina que não perdoa o pai, e eu, que não sei dançar».

Afonso Cruz, consciente do seu dever como escritor, afirma vincadamente a liberdade criativa sem em momento algum fechar a porta ao Portugal da crise. Na obra, ora surge em forma de confissão: «O trabalho de recuperar a memória deveria ser a nossa profissão, mas, tal como na sociedade, no mundo à nossa volta, há este desemprego horrível a que fomos condenados»; ora surge em forma de apelo por parte da criança pueril que ainda grita em nós: «Ajuda-me, pai, a perceber os caminhos que devo percorrer para chegar ao lugar onde estou. Onde sempre estivemos».

Para mim, “Flores” é um livro para quem quer remar contra a corrente, para os que nunca se resignam nessa vontade urgente de mudar o mundo.

Melanie Alves*

* Melanie Alves tem 25 anos, é licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior e formada em Marketing Digital pela Master D.. Natural de Miranda do Douro, foi jornalista na revista “Portugal Inovador” e desde nova que vive a paixão pelas histórias. Nunca descarta as cidades que Alexandra Lucas Coelho dá a conhecer, nem as intrigas que só Dostoiévski soube escrever. A autora acredita, no entanto, que «o mais imprescindível é o confronto nu e cru que só a rua nos poderá oferecer».

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