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O observador

Crónica Política

Sou já um mero observador, atento, reservado, mas de espírito livre, sem amarras ideológicas e descomprometido de interesses. Olhando o mundo, que nos acontece todos os dias, muitas vezes diferente do imaginado e onde a incerteza é regra em todos os domínios.

Observo um mundo feito de inocências perdidas e de ilusões mortas, numa sociedade que parece cansada, com os sonhos gastos e os projetos esgotados. Sinto que andamos desassossegados, confrontados todos os dias com o triunfo da palavra fácil, solta, elástica, perversa, cheia de suficiência, abusando da confiança dos valores que dizem e se propõem defender.

Vivemos assim inquietos, sem meios e quase sem força para resistir ao arbítrio dos factos. Sabemos bem que as Instituições sobrevivem aos tempos, mas nunca como hoje foi tão grave a falta de equação entre as Instituições e a Vida.

É grande a distância que vai da vida prometida à vida sofrida, da justiça reclamada à justiça proclamada, da promessa fácil aos escolhos da realidade. É a falta de consequências que explica a angústia e o afastamento dos jovens da vida pública.

Poderes que aqui e ali se arvoram no comando da nossa vida, abusando da sua legitimidade, fazendo o seu caminho na impunidade, na ostentação, no erro e no engano e com uma evidente e confrangedora falta de missão. Um mundo cheio de nada, de muita propaganda e pouca substância. O triunfo da plástica e da festa sobre os valores. E as raízes que se perdem cada vez mais na voragem da indiferença e da demissão.

O povo que aqui vive, sofre, trabalha e erra, que investe e perde e também aquele que estuda e duvida, tenta e falha, faz o seu caminho, resignado a viver de esperança e de ilusão. E, todavia, este povo resistente e heroico, de homens e mulheres anónimos, que somos, que amam a sua terra, companheiros por opção, sem escolha, presos à mesma circunstância, mas dignidade igual, está em face do mesmo desafio.

De reconstruir uma sociedade mais autêntica, de mãos mais solidárias, no respeito por todas as diferenças, por todas as culturas e por todas as gerações, juntando o saber de experiências à experiência do saber. Somando, acrescentando, contribuindo apenas para uma sociedade melhor, mais rica de valores universais. Mas também uma sociedade mais exigente no critério, na ética, nos valores, na responsabilidade e na qualificação.

A pensar e a fazer, aceitando os erros e os acertos com naturalidade, com os olhos postos no mesmo desígnio, descobriremos o caminho, feito de muitas vontades, de coragem e de esperança. Neste papel de observador, onde me encontro cómodo, pensando apenas contribuir, modestamente, para reconstruir uma sociedade mais justa e mais autêntica, nunca me ocorrerá sentir interlocutor do povo tão só porque simplesmente faço parte dele e é nessa condição que, pela palavra e pela escrita, não serei cúmplice de um silêncio gratuito e inútil.

Por: Júlio Sarmento

* Antigo presidente da Câmara de Trancoso e ex-líder da Distrital da Guarda do PSD

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