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Dar vida à praça

Editorial

Ali, em plena Praça Luís de Camões, na que foi durante séculos a “sala de estar” da cidade; ali, junto à majestática catedral, na praça a que chamamos Velha; ali, onde durante mais de 60 anos dominou D. Sancho, a estátua do rei povoador, que, por uma qualquer embirração foi pregado num dos recantos, funcionaram os Paços de Concelho. Entre a necessidade de melhores acomodações para a autarquia e o deslumbramento faraónico de Abílio Curto destruiu-se o central, distinto e agreste mercado para aí se construir um edifício de volumetria excessiva: a nova Câmara Municipal. Para trás ficou o velho palacete, que depois de obras caras e pouco proveitosas serviu de Mediateca – inaugurado com pompa e circunstância como centro nevrálgico das comemorações do VIII Centenário do Foral da Guarda, pelo então presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio (novembro de 1999) – um ano de festa rija e obras fartas: 12 meses, 12 inaugurações (!) – «uma inauguração por mês», pregava então Maria do Carmo Borges.

Dez anos e milhões de euros depois aquele que fora apresentado como um projeto visionário e de futuro, a Mediateca Oitavo Centenário, acabava sem honra nem glória. As “prendas” à cidade acabam quase sempre assim…

Depois, os antigos Paços de Concelho puderam ser muitas outras coisas, e não foram coisa nenhuma. A Câmara de Joaquim Valente e Vergílio Bento, sempre tão aplaudidos e reverenciados (quem está no poder é sempre bajulado), não teve o engenho e a arte para encontrar uma solução para o edifício. Enquanto se (des)qualificava a praça, prometeu-se ali instalar um “memorial” de Aristides Sousa Mendes, que era para ter sido no Solar Teles de Vasconcelos e depois não foi em lado nenhum… Fechado e votado ao abandono, há quatro anos o edifício foi concessionado à Comissão Vitivinícola da Beira Interior para ali instalar a sua sede. A “sala de visitas da cidade” moribunda e pouco recomendável ganharia assim um serviço e poderia atrair pessoas. Sonhou-se mesmo com um “wine bar” de sabores regionais, prometido pelos produtores dos néctares da Beira Interior. Mas, entre a crise e a falta de projeto, a vida dos antigos Paços de Concelho (por onde passa a vida da própria praça) continuou a ser adiada.

Finalmente, depois de anos de dúvidas e omissões, os antigos Paços do Concelho irão ter destino relevante e brioso: sede da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela.

Álvaro Amaro perdeu na sua pretensão de querer o antigo governo civil (que fica definitivamente para a PSP) para sedear a comunidade a que, como repete à exaustão, poderia presidir se quisesse (e, se calhar, por isso, na assinatura do contrato de comodato, nem o presidente nem os vices da CIM estiveram presentes), mas ganhou com a solução encontrada: instala a CIM num edifício e num contexto relevante, recupera um edifício em elevado estado de degradação e, o mais importante, contribui decisivamente para renovar e atrair pessoas à praça que já foi o centro e o “coração” latejante da urbe e que leva anos abandonada.

Por outro lado, o laboratório vinícola, centro de certificação e sede da Comissão Vitivinícola ficam muito melhor no antigo “quintal medroso”… onde, por entre o labirinto, os medos e as lendas, houve pingas memoráveis.

Luis Baptista-Martins

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