O António Emílio Carrajola Aragonez completou, no passado dia 22 de setembro, 81 anos de idade.
Alentejano de nascença, o Toninho, para os amigos, veio de pequeno para a Guarda e aos 19 anos concorre à rádio, sendo efetivamente admitido. A partir daí e ao longo de décadas, as ondas hertezianas foram a sua vida, o seu permanente desejo, a sua paixão numa constante presença em frente ao microfone. Citando Hélder Sequeira, «a sua vida é feita de trabalhos, desencontros, incompreensões, silêncios, amarguras e felicidade… trazendo à ribalta inúmeras questões: desencadeou o confronto de opiniões, denunciou injustiças, foi porta-voz de múltiplas aspirações… sempre na vanguarda da informação sem hipotecar a sua consciência nem trair os seus princípios».
Foi o Toninho que me levou para a rádio e ali estive anos a fio retratando-me naquilo que José Domingos escreve: «Naquele dia longínquo em que me colocaste frente a um microfone. Confesso que nem sabia mexer no gira-discos, naquela cabine forrada de mantas e trapos, decorada com um gongue montado pelo saudoso António Santos, os pesados gravadores de bobine, máquinas pesadas e grandes, os calendários oferecidos, um pequeno armário com os indicativos, o guião da publicidade elaborado pelo Antunes Ferreira e montes de spots gravados empilhados em saco de papel».
Foram anos diferentes, bonitos, de amizade, de convívio nessa nobre e honrada família da rádio. Obrigado Toninho.
Aragonez é um Homem extraordinário, extremamente amigo, solidário, daqueles que sabem viver o dia-a-dia, ultrapassando barreiras, construindo pontes, laços de verdadeira amizade, com um sentido de humor extraordinário.
Conta-se que tendo sido convidado para estar presente no Governo Civil, na receção ao ministro Ângelo Correia a fim de fazer a respetiva reportagem, a mesma foi inviabilizada. O bom do nosso Homem não se conteve e disse «primeiro convidam-nos e agora mandam-nos embora. Não somos palhaços». Virou costas e, à saída, ouviu a voz do ministro: «Olhe lá senhor do casaco branco». Aragonez, envergando um casaco de linho branco, olhou para o governante e disparou: «Diga lá, senhor do casaco castanho».
E depois há estórias como aquela do avião da TAP que transportava a equipa do Marítimo. Não conseguindo aterrar devido às condições atmosféricas, o Toninho embrulhou todas as palavras que tinha para dizer e saiu assim: «O avião não podia aterrar no respetivo campo de jogo».
Seguem-se as histórias do 1º de Abril. António dá a notícia que um camião que transportava ovos se havia despistado junto ao matadouro. Seguiu-se o corrupio de gente que acorreu ao local com a finalidade de encher sacos e sacolas. E, já agora, aquela da Torre dos Ferreiros que se tinha desmoronado, o que fez com que centenas de curiosos fossem ver a Torre em ruínas.
A melhor delas todas foi, sem dúvida, aquela do acidente mortal: «Um morto resultou do acidente… e muita sorte teve o cadáver em o carro não lhe passar por cima».
Dos inúmeros depoimentos permito-me citar apenas alguns, começando com Hélder Sequeira nas edições “O Fio da Memória”, com o título “Um Aragonez na Rádio”: «O espírito jornalístico quotidianamente cultivado deu-lhe uma evidente e reconhecida notoriedade, a par de um enorme conjunto de privilegiadas fontes de informação, que soube respeitar e preservar; uma conduta que lhe garantiu informações, tantas vezes inacessíveis a outros colegas de profissão. A sua aparência descontraída, porventura mesma descuidada, reflexo da sua peculiar forma de ser e do desprendimento pelos bens materiais, não raro originava humorísticos episódios, partilhados nos círculos de colegas e amigos, os quais facilmente lhe reconhecem mais virtudes que defeitos».
Adriano Vasco Rodrigues escreveu: «O ouvinte ficava e fica, ainda hoje absorvido pela abundância dos seus conceitos, pelo escândalo das suas palavras e pela crueza das situações por ele descritas numa linguagem despida dos falsos preconceitos».
Alípio de Melo: «A rádio, em geral, e o Altitude, em particular, devem-lhe muito».
Almeida Santos: «Habituei-me a apreciá-lo como profissional competente, zeloso e integro». O António foi ainda colaborador da Rádio Renascença, “Tal e Qual” e “Jornal de Notícias” e o reconhecimento veio de todos os lados: galardões, homenagens, cerimónias, convívios, demonstram tudo aquilo que o bom do Aragonez é. O que fica por dizer e escrever não cabe, tenho disso absoluta certeza, nas páginas da edição de hoje de O INTERIOR.
Parabéns António Emílio Carrajola Aragonez. A Guarda contou, conta e continua a contar contigo.
Por: Albino Bárbara
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