P- O que significa este prémio atribuído pela EDP e que visa homenagear Manoel de Oliveira?
R- Em primeiro lugar, é uma grande honra receber este prémio, não só por ter agradado ao júri oficial, também pelo valor elevado da bolsa – 50 mil euros – e pelo que me vai permitir, mas, e não menos importante, porque é um prémio de Manoel Oliveira, que foi, é, e com certeza será um dos maiores cineastas, não só no contexto de cinema português e europeu mas mesmo a nível mundial.
P- Em que consiste a curta-metragem “Pele de Cordeiro”?
R- O “Pele de Cordeiro” é um filme num formato muito específico chamado “plano de sequência”, não recorre ao uso de montagem no sentido direto da palavra. Ou seja, não temos um plano que depois corta para outro. O filme começa e acaba num único plano, sem cortes, onde depois a montagem, o ritmo do filme acontece naturalmente com o movimento de câmara e com a própria ação. É um filme sobre a autoridade, também sobre a paternalidade e sobre o poder. O poder sobre os outros, acima de tudo. A bolsa era para filmes feitos em contexto de escola. Eu fiz o filme durante o primeiro ano de mestrado na Universidade da Beira Interior (UBI) e recorri a cenários reais e também a atores amadores, ou não atores, ou seja, pessoas que representam em contexto não profissional ou que nunca representaram. Um fator também tido em conta pelo júri, uma vez que estas são também algumas das caraterísticas do cinema de Manoel de Oliveira, para além do estilo neorrealista.
P- O que vai fazer com o prémio que recebeu? Investir na sua formação?
R – O prémio é para formação, para uso exclusivo em formação, que poderá ser aplicado de várias maneiras, tendo em conta o elevado valor monetário. Atualmente estou a terminar o segundo ano de mestrado, o que farei brevemente, e depois, a partir do próximo ano letivo, desejo ir para o estrangeiro. Ainda estou a estudar as opções, tentar jogar com os diversos fatores, não só o dinheiro mas também algo que possa ser um complemento à formação que já tenho de forma a que possa aproveitar ao máximo. Neste momento estou a considerar tirar algum curso nos Estados Unidos, na América do Sul ou na Ásia. Será uma forma de não ter apenas noção do cinema europeu, mas também de cinema com realidades que serão consideravelmente diferentes.
P- Quais são os próximos objetivo?
R: O grande objetivo é continuar a fazer cinema e continuar a trabalhar na área do audiovisual. Neste momento, a curto prazo, é fazer o meu projeto final que consiste em criar um filme, que estou a desenvolver neste momento. A longo prazo o objetivo é mesmo continuar a fazer cinema, quanto às condições isso depois logo se verá no futuro.
P- Como vê o cinema português?
R: Vejo o cinema português com muito orgulho, acho que há grandes obras que já foram feitas e outras que estão agora a ser feitas. Nestes últimos anos pode- se verificar isso mesmo, pois o cinema português tem sido reconhecido mesmo a nível internacional, com uma realizadora que este ano ganhou um dos grandes prémios de Berlim. Há poucos anos o João Salaviza, ganhou a Palma de Ouro de melhor curta-metragem em Cannes e mesmo agora tivemos um ator português a ganhar também um prémio de representação num filme português no Festival de Veneza. Ou seja, o cinema português é bastante reconhecido lá fora, quer na curta, quer na longa-metragem, pela sua qualidade acima de tudo e acho que isso é completamente verificável. Também devido à nova vaga, com a nova geração e devido à propensão do cinema digital que permite fazer cinema com muito menos recursos, acima de tudo com muito menos dinheiro, está a vir agora também uma variedade muito saudável e muito boa de filmes quase em todos os géneros, desde a fantasia, comédia, terror ou drama. Acho que já se começa a verificar dentro da curta-metragem um grande interesse do público, tendo em conta que nos últimos anos têm surgido imensas mostras e festivais de pequena e média dimensão de cinema, não só em Lisboa e no Porto mas por todo o país. Posso dizer que o cinema português, aos poucos, está a ganhar mais público.
P- Com que realizador se identifica e porquê?
R- Há vários. Portugueses, estrangeiros desde Alfred Hitchcock, que é o pai do suspense que fez cinema fantástico, até Kubrick e Manoel de Oliveira, que teve um papel fundamental no crescimento do cinema português ao longo de décadas. Sem esquecer realizadores que ainda estão no ativo, como João Salaviza, que é um realizador ainda considerado jovem. Tem feito cinema que, se calhar, se enquadra um pouco no estilo que eu estou a tentar desenvolver, que será sempre diferente como é óbvio, mas não é por isso que não deixamos de ter inspirações.
Perfil
Vencedor do Prémio EDP/Manoel de Oliveira
Profissão: estudante
Idade: 23 anos
Naturalidade: Lagos
Currículo: Licenciado em Cinema, a terminar o mestrado em Cinema. Realizou quatro ficções e o documentário “Terras de quem sou”, já apresentado em várias mostras e festivais de cinema .
Hobbies: Cinema e fotografia


