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«Há falta de material pedagógico em português para o ensino dos instrumentos e de apoios à sua criação»

Cara a Cara – Ana Raquel Pinheiro

P- Qual tem sido o impacto da obra e como tem sido recebida pelos músicos?

R- O livro tem tido uma grande aceitação. Antes da publicação foi feita uma campanha de “crowdfunding” para garantir a venda de cerca de 100 livros de forma a cobrir algumas despesas de paginação e impressão. Para minha grande surpresa a campanha atingiu 197 por cento do valor estabelecido inicialmente, o que, em termos práticos, significou a venda do dobro da quantidade ainda antes do mesmo ser colocado à venda nas lojas (o que aconteceu no final de abril). Tem sido muito gratificante receber comentários de colegas de profissão com palavras de agradecimento e elogio sublinhando a utilidade dos jogos e a ajuda que têm dado no desenvolvimento técnico e melhor compreensão dos alunos, relativamente a questões de postura e sensações físicas necessárias à técnica do instrumento. Penso poder dizer que este livro teve um forte impacto para a comunidade escolar, uma vez que já há alguns pedidos para um segundo volume com mais jogos. 

 

P- A quem se destina o seu livro?

R- O livro é destinado a alunos de violoncelo e seus pais para que estes possam compreender e apoiar o estudo dos filhos na parte do trabalho que não requer conhecimentos de leitura musical. Tem como objetivo ser um suporte pedagógico dos conteúdos relacionados diretamente com a técnica do instrumento. Normalmente este trabalho é feito em paralelo à execução de obras musicais mas carece de suportes bibliográficos. A verdade é que não é possível dar um violoncelo, um arco e uma partitura a um aluno dizendo simplesmente “agora já podes tocar”. O conjunto de explicações, exercícios e a procura de sensações físicas que antecedem a leitura musical e a performance são de extrema importância para o resultado sonoro. É neste momento da aprendizagem que surgem os jogos, uma vez que, no fundo, são mini exercícios que vêm ajudar a complementar o trabalho. O livro destina-se ainda a professores de violoncelo ou outros instrumentos de arco, como violino, violeta e contrabaixo, uma vez que nestes casos é importante que sejam os professores a fazerem uma pequena adaptação dos jogos devido às diferenças entre os instrumentos.

P- Trata-se de um tema que faltava ser explorado em Portugal?

R- A grande questão não é a falta de exploração do tema em Portugal mas sim a ausência de registo em suportes bibliográficos. Em Portugal é inexistente e noutros países é escassa. Este assunto esteve sempre reservado à experiência pessoal de cada músico instrumentista através dos ensinamentos de professor para aluno, passando oralmente de geração em geração. É possível encontrar alguma bibliografia em língua estrangeira com algumas sugestões de exercícios, tal como surge, por exemplo, nos Tratados de Violoncelo do séc. XVIII. A questão é que nessa altura não havia escolas de música para crianças e a linguagem utilizada destinava-se a adultos. Mais tarde, na primeira metade do séc. XX, com o desenvolvimento da pedagogia instrumental e o crescimento do número de crianças a aprender, surgem também alguns manuais mais apelativos mas todos eles em língua estrangeira. Quase sempre estes apresentam conteúdos exclusivamente musicais não dando a devida importância ao assunto em questão. 

 

P- Como vê o ensino da música em Portugal?

R- Penso que é muito importante começar por referir o grande desenvolvimento no ensino da música ao longo dos últimos anos. O nível dos jovens músicos é cada vez mais alto e hoje em dia é já surpreendente vermos crianças de 8 anos com um excelente nível instrumental. Vemos jovens portugueses a ganharem importantes concursos internacionais, a entrarem em conceituadas escolas, assim como nas melhores orquestras mundiais. Apesar dos excelentes resultados de professores e alunos, a falta de apoios para proporcionar condições ao ensino da música é um enorme problema. O ensino da música é extremamente dispendioso. As aulas de instrumento são aulas individuais, as salas de estudo também individuais, as partituras, os instrumentos, a manutenção dos mesmos e seus acessórios são muito caros. Tem sido com muito boa vontade, muito esforço e sem qualquer apoio que as escolas, alunos e professores têm conseguido sobreviver a todos os obstáculos. Por último, saliento a gravidade da total falta de material pedagógico em língua portuguesa para o ensino dos instrumentos e a falta de apoios à sua criação/elaboração.

 

P- A Ana Raquel e o Bruno Borralhinho são dois violoncelistas de sucesso naturais da Covilhã. Existe uma tradição do violoncelo na Covilhã ou é mera coincidência?

R- Na altura em que eu e o Bruno começámos a estudar foi de facto mera coincidência. Começámos juntos e fomos a terceira turma de alunos da EPABI. A EPABI e o Conservatório foram responsáveis pela tradição da música e pela boa formação que deram a tantos alunos. Relativamente a uma tradição do violoncelo na Covilhã penso que será mais real lembrarmos os excelentes professores que tivemos na Covilhã: Rogério Peixinho e Luís Sá Pessoa. E até mesmo lembrar alunos mais velhos que nos serviram de exemplo e inspiração, como o Filipe Quaresma, que é um grande violoncelista. A tradição, essa, creio que seja igual à de outros instrumentos escolhidos por colegas nossos que também eles são hoje músicos de sucesso. 

 

P- Atualmente, é música profissional, ou está dedicada ao ensino?

 R- Ambas… Dou aulas de violoncelo e orquestra na Academia de Música de Santa Cecília, em Lisboa, onde estou desde 2005 e onde sou também coordenadora da classe de cordas. Tenho trabalhado com alunos entre os 5 e os 18 anos. Para mim, o ensino é uma paixão e uma aprendizagem contínua, é algo de muito gratificante que faço com grande prazer. Já não poderia viver sem o contacto com os meus alunos e o carinho que recebo. Do outro lado, tenho a minha outra paixão, que é tocar violoncelo e que exige também muito tempo e dedicação. Por vezes, não é fácil conciliar o ensino com os ensaios e concertos mas, tal como na vida em geral, com vontade tudo se consegue. Continuo a desenvolver novos projetos, a colaborar com diversas orquestras e a preparar concertos a solo e em música de câmara. Estou também a preparar algumas apresentações do livro e tento não perder de vista alguns objetivos, continuo a estudar, a aprender e a inventar desafios…

Perfil:

Autora do livro “O violoncelo – Jogos para miúdos/ prescrições para graúdos”

Idade: 33

Profissão: Música e professora 

Naturalidade: Covilhã

Currículo: Leciona violoncelo na Academia de Música de Santa Cecília desde 2004, sendo também coordenadora da classe de cordas. Foi júri do concurso Prémio Jovens Músicos 2015, na categoria de música barroca. Concluiu o curso “Biennio di Specializzazione” com a classificação máxima na Scuola Civica di Musica di Milano, na classe de violoncelo barroco. Colaborou com a Orquestra Gulbenkian, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Orquestra do Algarve, Orquestra de Câmara Portuguesa e ainda agrupamentos e orquestras em Espanha e Itália. Atualmente colabora com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a Orquestra e Ensemble Músicos do Tejo, a Melleo Harmonia, a Lisbon Film Orchestra e, desde 2005, integra a orquestra barroca Divino Sospiro.

Livro preferido: “Le Città Invisibili” de Italo Calvino

Filme preferido: Cinema italiano em geral e alguns realizadores em particular, tais como Lars von Trier, Bergman, Tarkovski e Fellini.

Hobbies: Ler, dançar, ir ao cinema, passear e brincar com o meu cão.

Ana Raquel Pinheiro

Sobre o autor

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