As previsões apontam para que, este ano, possa vir a ser o mais quente desde que existem registos a nível mundial.
O mês de julho de 2016 foi o 2º mais quente desde 1931, ano em que se iniciaram os registos das temperaturas.
Nesta onda invulgar de calor, todas as atenções estão viradas para o litoral e mais precisamente para o Algarve e as suas zonas balneares. Infelizmente, sobretudo, na área da Saúde – para não variar – pelos piores motivos.
No final do mês de julho, o Serviço de Urgência Básica de Albufeira esteve a funcionar com um médico, apesar de a legislação obrigar à presença mínima de dois médicos. Mas nem sequer o desrespeito da legislação é o mais grave… O bom senso aconselharia, aliás, a reforçar os recursos humanos numa zona de exponencial aumento da população nesta altura do ano.
Esta demonstração de desorganização pode, potencialmente, desencadear situações catastróficas e descontroladas.
Todos os anos se repetem as mesmas lições, mas, todos os anos, o Ministério da Saúde, como mau aluno, tem sido incapaz de prever e atuar devidamente.
Recentemente, um jornal nacional deu conta de três ortopedistas terem abandonado o serviço de urgência sem possibilidade de serem contactados, deixando à sua espera, três doentes para serem operados com traumatismos complicados por fraturas ósseas.
Estes dois exemplos com grande impacto mediático, tendo em conta o local onde decorreram e nesta altura do ano, demonstram exemplarmente o alto nível de desorganização e descontrolo dos recursos humanos na área da Saúde.
É indesmentível que faltam médicos no nosso País e que, devido à burocracia dos processos e às condições oferecidas, são cada vez mais os profissionais de saúde a saírem definitivamente para o estrangeiro. O evidente abuso do recurso às empresas de contratação de médicos, em vez de privilegiar a contratação direta dos médicos, está a destruir o funcionamento das unidades de saúde.
Mas o caso dos ortopedistas do Centro Hospitalar do Algarve tem ainda outros contornos que não queria deixar de apontar. Trata-se de um caso de irresponsabilidade, de incumprimento das funções laborais e, sobretudo, de violação deontológica grave. Caso estes exemplos venham a ser comprovados – médicos que abandonaram o serviço de urgência com doentes à espera para serem tratados – a Ordem dos Médicos, através do seu Conselho Disciplinar, deverá ser exemplar na sua atuação em punir estes médicos.
A Ordem dos Médicos defende a qualidade da Saúde bem como os médicos que estão verdadeiramente ao serviço do bem-estar dos seus doentes. Quem não cumprir com os seus deveres éticos, no atendimento e no tratamento dos doentes, não tem os requisitos mínimos para abraçar esta profissão.
Se assim for, o melhor é deixarem o lugar a outros…
Este verão quente pode, inesperadamente, provocar graves consequências em várias áreas. Na saúde, mais uma vez, não tem sido exceção.
Por: Carlos Cortes
* Presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos


