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Fructidor

1. Passou um mês após o célebre episódio de Ronaldo atirando um microfone do CMTV para uma lagoa francesa. Tempo suficiente para se falar dele sem espartilhos nacionalistas, ou justiceiros. O caso acolheu várias interpretações e comentários, alguns contraditórios. O mais óbvio, mas talvez mais superficial, é condenar Ronaldo por este “atentado” à liberdade de imprensa. A inveja, esse desporto nacional, ficaria assim apaziguada, diante do gesto “ignóbil” do menino d’ouro, que impede o “heróico” jornalista de cumprir a sua “nobre” missão. Mas é preciso ir além da superfície. Portugal é um país pequeno, onde quase todos se conhecem. Quem sobressai pelo mérito, pela genialidade, ou pela audácia, é imediatamente desautorizado, relativizado pela aurea mediocritas que empesta o ar. Ou seja, em cada português pode haver certamente um Mozart, mas as probabilidades de se tornar um Salieri são avassaladoras. Por outro lado, na impossibilidade de apoucarmos o génio, o mesmo mecanismo colectivo leva a que lhe prestemos vassalagem incondicional, sob a forma da idolatria. Mas a exigência cobrada por tal tributo é imensa. Nada menos do que o sucesso contínuo, a exemplaridade, a glória do gladiador quando limpa a arena dos adversários. Deste modo, Ronaldo tornou-se o depositário e o catalisador da húbris nacional. Passemos agora ao “jornalismo” que se pratica por aí, sobretudo ao estilo do CM. “The Lost Honour of Christopher Jefferies” é um filme britânico, que nos conta a história verídica de um homem cuja vida quase chegou a ser destruída pela voragem dos media. Acusado de um crime que não cometeu e cujo verdadeiro autor foi depois condenado, Chris é um excêntrico professor universitário numa pequena cidade do sul de Inglaterra. Preferindo a companhia dos livros e da música, tem um restrito grupo de amigos e mostra-se sempre prestável para a comunidade e os vizinhos. Mas depois de uma sua inquilina ter desaparecido e o seu corpo ser encontrado nas redondezas, passou à categoria de suspeito. Porquê? Simplesmente graças à sua excentricidade, à sua misantropia solidária, ao seu refinamento cultural, à sua irredutibilidade moral. E enquanto esteve detido, a imprensa encarregou-se de vasculhar toda sua vida, recolhendo depoimentos de amigos, colegas, vizinhos, alunos, apresentando-o como um “solitário” depravado, sedicioso, amoral. E, ainda por cima, “culto”. Apesar de ilibado, os danos sobre a sua imagem foram devastadores. Accionou judicialmente boa parte da imprensa britânica de grande circulação e obteve não só uma indemnização considerável, como ainda uma retratação generalizada, com pompa e circunstância. Mais tarde, veio a ser activista numa comissão destinada a rever as leis sobre a imprensa e tornou-se convidado regular em conferências e fóruns sobre o tema. Portanto, se a comunicação social livre e independente é imprescindível em sociedades abertas e democráticas, é também um poder que, ele próprio, tem que ser limitado.

2. Na Guarda, as festas populares prolongam-se pela noite fora, em zonas abertas. Por sua vez, as académicas fazem-se no centro da cidade. Só para dar um exemplo, a última passagem de ano académica decorreu no Largo da Misericórdia, numa quinta-feira, tendo acabado pelas 06.30. Por sua vez, a edilidade quis reabilitar as festas joaninas, de cariz popular, envolvendo os bairros. A ideia é boa, desde que a “animação” não se estenda para lá da meia-noite (mais tarde se ao fim de semana), se em espaços abertos próximos de zonas residenciais. Ou então, que os decibéis sejam contidos a partir dessa hora. Infelizmente, não é isso que acontece. Na zona histórica, onde vivo, decorreu, na passada semana, mais uma dessas “acções de animação”. “Muito bem!”, pensarão os mais desatentos. “Tasquinhas com figuração e música medieval e comércio fora d’horas! “, já estou a ouvir os mais optimistas. Desenganem-se, caros amigos! O que lá está é um palco e duas barracas de comes e bebes. O cenário esquálido de uma espécie de rave com sonoridade electropimba. Onde os decibéis têm tendência a aumentar, ressoando nas casas em pedra como se as goelas de um vulcão se abrissem de repente, anunciando o Apocalipse. Para isto, a Câmara concede miraculosas autorizações especiais de ruído. Ou seja, suspende-se a lei e o direito fundamental de quem vive nas redondezas ao sossego, para que meia dúzia de foliões se embebedem e embruteçam à vontade.

3. Os líderes mais esclarecidos de Roma desprezavam os bajuladores e chamavam para junto de si os que não tinham medo de dizer a verdade. Sabiam bem que, destes, poderiam esperar uma bravura dedicada. Talvez uma lealdade impossível. Pelo contrário, desconfiavam que os adocicados encómios dos aduladores acabariam, provavelmente, na ponta traiçoeira de um punhal. Nos dias de hoje, tanto quanto é dado perceber, a lição foi desaproveitada. E pena.

4. O Kit do eremita moderno: Bíblia em formato de bolso, botas de caminhada, smartphone e tablet com carregador solar, um canivete suíço completo, malga, gorro, cobertor reforçado, isqueiro, pilha solar, acendalhas, fio e anzol, arco e flechas, sementes variadas, machado, óculos 3D.

Por: António Godinho Gil

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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