Arquivo

Nada ficou na mesma

Atemorizado pelos ganhos eleitorais do UKIP e acossado pelos conservadores eurocéticos, David Cameron, agora primeiro-ministro demissionário, prometeu referendar a permanência do Reino Unido na União Europeia.

Cameron achou que a inesperada maioria absoluta de 2015 e o acordo entre Londres e Bruxelas assinado em fevereiro, que atribuía um estatuto ainda mais especial ao Reino Unido, garantiriam a força necessária ao “remain”. Enganou-se e por via desse irresponsável engano abriu caminho à possibilidade de um líder populista tomar conta do Partido Conservador. Somar o populismo nos conservadores à liderança inexistente do socialista Jeremy Corbyn nos trabalhistas e à irresponsabilidade de Nigel Farage é um risco com danos potenciais equivalentes ao Brexit.

É que o Reino Unido continuará a ser uma grande economia, uma potência nuclear com assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas e o principal e mais avançado exército europeu. E nesta altura não se vislumbra uma solução para a crise dos refugiados nem para o problema de defesa e securitário que a Europa atravessa, exatamente os principais fatores – se ignorarmos as questões do défice democrático e o descontentamento dos mais pobres – que deram a vitória ao “leave” no referendo.

Na UE a resposta foi difusa. Mas ao contrário do que se ouve, a reação inicial do diretório europeu mostra que as coisas não terão ficado na mesma. Até agora havia o eixo franco-alemão, com a chanceler Angela Merkel a incluir, mesmo que só na forma, Paris nas principais decisões. Esta fórmula permitia a Berlim parecer que não decide tudo sozinho. Mas a reunião dos seis membros fundadores (Alemanha, França, Itália e Benelux) da União pareceu um sinal de que ganharam força aqueles que defendem o regresso a uma União de núcleo restrito. É essa a teoria, por exemplo, do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, que defende também duas divisas europeias, um euro forte e um fraco.

Depois Merkel convidou (para Berlim, pois claro!) Matteo Renzi (Itália), François Hollande (França) e Donald Tusk (presidente do Conselho Europeu) para discutir uma resposta ao Brexit. Ignorou Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, que tem advogado, em oposição a Tusk, a necessidade de negociar rapidamente o Brexit para diminuir a incerteza. Merkel pede prudência. Mas sabe-se que os periféricos (dívida pública e mercados) são os primeiros a ser atingidos, rápido e em força, sempre que a incerteza se avoluma. É de esperar que o Brexit provoque mudanças profundas, faltando saber se vai ou não haver uma alteração também profunda no status quo e modus operandi europeus.

Em Espanha houve eleições com o Brexit em pano de fundo, o que terá favorecido os conservadores do ainda primeiro-ministro Mariano Rajoy. Muitos espanhóis terão votado pela certeza contra a incerteza dos nacionalismos independentistas que a saída britânica reavivou. Porém apesar de um Parlamento novamente polarizado e de não haver uma solução governativa óbvia, não se pode dizer que Espanha teve eleições para deixar tudo na mesma. Porque a derrota do Unidos Podemos foi também uma derrota do extremismo populista antieuropeu. Nem tudo está mal.

Por: David Santiago

Sobre o autor

Deixe comentário