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1. “Soubemos sofrer!”. Foi a frase mais ouvida nas TV quando Portugal ganhou à Croácia no Europeu de futebol. Dita por jogadores, adeptos e comentadores. Com uma convicção inabalável. Saber sofrer. Sem querer, estamos a falar de uma marca essencial da nossa matriz cultural. Um espanhol desdenha o sofrimento. Para um italiano, é um motivo cénico. Para um francês, um passe coreográfico. Para um japonês, um desafio. Para um inglês, talvez uma razão para o humor. Para um árabe, uma fatalidade histriónica. Mas nós somos diferentes. Não escondemos o sofrimento. Não fazemos dele algo inacessível, aterrador, requintado, sobrenatural, salvífico. Nós sabemos que o sofrimento dorme connosco. Faz parte da decoração. É o braço que empunha o chicote e a promessa da redenção. Nós não aguentamos a perda. Mas não podemos viver sem a sua sombra. Sabemos sofrer? Não. Por isso, aprendemos sempre. Desde que ganhemos, claro.

2. Foi notícia recente o director escolar de Carcavelos que, no seu agrupamento, aboliu os trabalhos de casa, os chumbos e, pasme-se, os toques de campainha. Deve ser o paraíso na terra. No entanto, por muito que tentem inventar, aprender nunca foi fácil. Fazer disso uma festa, sem metas e exigência, está-se mesmo a ver no que vai dar: futuros tótós, auto complacentes, preguiçosos e bué de “felizes”. A propósito, leio num grupo de uma rede social, reservado a uma classe profissional em que a licenciatura é obrigatória, a palavra “pude-se”. Erros deste tipo são frequentes neste fórum, onde já li “promeça”, “fizesse-mos”, o inevitável “há-des”, etc. Aposto que estes cidadãos foram extraordinariamente “felizes”, enquanto estudantes. Agora são só iletrados de luxo.

3. Já se percebeu quem são os grandes beneficiários líquidos do regime: os oligarcas da política, da finança, das grandes sociedades de advogados e da Maçonaria. Portugal tornou-se uma cleptocracia dos subúrbios, onde as cartas são distribuídas pelos mesmos que as recolhem, e os trunfos nunca saem de mão. Mas a fraude aparece sempre como outra coisa. Os títeres nunca dispensaram os ilusionistas, tal como os reis nunca prescindiram dos bobos. Porque tudo isto é mantido graças a um gigantesco truque: a Justiça faz de conta que a lei é aplicada aos grandes, as entidades reguladoras fazem de conta que regulam, os órgãos de soberania fazem de conta que o país é soberano, o Governo faz de conta que governa, os emissários em Bruxelas fazem de conta que protestam, o PR faz de conta que reina, as meninas do BE fazem conta que tratam da moral da Nação, os partidos fazem de conta que estão acima de tudo isto e Costa faz de conta que existe. E tudo isto só é possível enquanto para Bruxelas compensar salvar a face, em vez de pagar o preço de se desembaraçar de nós. Ou seja, enquanto ficarmos baratos à UE.

4. A necessidade leva ao engenho. O engenho leva ao risco. O risco leva a responsabilidade. A responsabilidade leva à liberdade. A liberdade leva à imaginação. A imaginação leva ao ócio. O ócio leva à necessidade. Que tédio!…

5. Acerca do Brexit, já quase tudo foi dito. Só me ocorre partilhar algo que escrevi recentemente. Numa praia onde de me encontrava, havia uma família inglesa com duas criança entre oito e dez anos. Passaram o tempo a escavar a areia com as suas pás, orientadas pelo pai. Como se estivessem algures no Egipto, em registo Indiana Jones. Percebi a natureza do génio britânico. Mesmo quando a escavação é uma metáfora da curiosidade e não uma memória de tradições mineiras, militares ou arqueológicas. É um génio exploratório, em vez de especulativo. Experimental em vez de dogmático. É o génio que produziu Darwin, Shakespeare, Dickens, Ricardo, Turner, Newton. Escavações que conduzem à descoberta das leis naturais e económicas. Ou, por via artística e literária, às subtilezas da devastadora, mas surpreendente comédia humana. Mas dificilmente levarão a edifícios complexos, teorias criadas para funcionar como relógios, grandes sistemas construídos de cima, ou derivas psicanalíticas…

6. Certo dia, vi um trolha mandar um piropo a uma “inocente” rapariga. A qual, no momento, ia a curtir a sua música com os headphones vem visíveis. É certo que tamanha “ofensa” não chegou à “vítima ‘. Mas o hediondo comportamento criminoso do trolha não deveria ficar em claro. Ainda tentei pegar no telemóvel, para denunciar o caso às autoridades. Infelizmente, esqueci-me do aparelho em casa, pelo que o vil perpetrador ficou impune…

7. Há um momento em que está tudo por nós, ainda que ninguém nos queira acompanhar nessa vertigem. Há um momento em que parece tudo estar à espera da audácia do nosso próximo lance, mas é difícil imaginar como ele é solitário. Há um momento em que podemos resgatar a memória, abandonar a arena, soltar as amarras, largar o lastro. Mas o melhor é estarmos precavidos de que ninguém o irá fazer por nós. Há um momento em que tudo parece estar perdido. É quando se torna claro que não podemos mais partilhar as responsabilidades por aquilo que somos. E olhamos para esse encargo como um peso, em vez de uma alavanca. A flecha sai do arco em silêncio, sem uma réstia de hesitação. Como se fosse a respiração do tempo. É fundamental estarmos preparados para esse momento.

Por: António Godinho Gil

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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