1. Em boa hora, a Quetzal irá reeditar a obra completa de VF. Dele só li o romance “Para Sempre”, para além dos inevitáveis “Aparição” e “Manhã Submersa”. Do “Conta Corrente”, que terá, segundo a notícia, edição digital, só conheço alguns fragmentos. Curiosamente, a razão deste relativo desconhecimento não é o desinteresse, mas a proximidade. Ou seja, sempre me identifiquei sem reservas com o universo de VF: o distanciamento face às modas políticas, às feiras das vaidades, aos compadrios e capelinhas. O apreço por essa “solidão inacabada” de que ele falava. E saber que tudo isso tem um preço. Ora, essa identificação, que até pode ser ilusória, tem um efeito colateral: impede a descoberta descomprometida, a leitura recatada de um autor que, colocando-nos demasiado próximos, acabamos porventura por injustiçar…
2. O doutor Cavaco resolveu atribuir uma prebenda a um obscuro professor do ISCSP, notabilizado por, em 1992, enquanto Subsecretário de Estado da Cultura, ter impedido que o livro de Saramago “Evangelho Segundo Jesus Cristo” tivesse concorrido a um prémio europeu. É do conhecimento geral que os comunistas se dão muito bem com a liberdade de expressão. Ou seja, demonstra a História que, se nunca puseram em causa a liberdade de expressão, em relação à liberdade depois da expressão já o caso é outro. Soljenistine é só um exemplo paradigmático. Mas acontece que vivemos num país democrático. E há que dar o exemplo. O livro, provavelmente nem merecia tanta publicidade. Notável o trabalho de pesquisa de Saramago na sua criação. Mas do ponto de vista literário, não entusiasma. Sendo um pouco mais hábil, Cavaco bem poderia ter nobilitado outra clamorosa nulidade: Pilar del Rio. Dividia assim o mal pelas aldeias e acalmaria os coros de indignações nos fóruns e redes sociais.
3. Por vezes, o narcisismo descontrolado encontra o seu terreno de eleição. Ou seja, aquilo que, à falta de melhor, se poderia chamar a “arte”. Não como um meio de criação de valor, claro está. Ou de humilde aproximação à caótica e evanescente trepidação da vida. Ou como um encontro a que não se pode fugir. Esses são atributos da arte sem aspas. O auto proclamado “artista” resume a arte a um espectáculo onde a estridência (a sua) faz as honras da casa. À sanha onde toma a outra arte, a autêntica, como um terreno de luta pela sua afirmação pessoal. Ou seja, uma continuação da política exactamente pelos mesmos meios. Porém, com um subtil toque de Midas: vendida como coisa diferente, certificada, prestigiante. Mas se assim é, o “artista” pode tardar a assumir abertamente o seu verdadeiro animus dominii – o exercício alucinado de um pequeno poder num círculo blindado – mascarando-o, provisória, mas eficientemente, com a inimputabilidade da sua condição de “artista”. Desta forma, porque não diz ao que vem, o seu mérito artístico nunca chega a ser escrutinado, porque encarado como simples labor político. Porém, no fundo, o “artista” narcísico vive cercado pelo medo: da escassez do aplauso, da isenção de quem pensa fora da matilha, da usura do tempo. E, sobretudo, desdenha a liberdade do criador que sabe onde está o verdadeiro poder. Ou seja, precisamente na ignorância, na disponibilidade incondicional para a brincadeira. O multi-artista, pelo contrário, leva-se totalmente a sério. O aplauso é o múnus dos que o cercam. Não sabe que, na verdadeira arte, o oficiante deixa-se morrer um bocadinho. Na condição de simples agente de um fulgor que não é seu, mas que todavia faz brotar. Nada de novo, portanto. Os pequenos totalitarismos só diferem dos grandes pelo número de caracteres que lhe dedicam os compêndios de história.
4. Que é feito do recém eleito Prof. Marcelo? Desapareceu no célebre buraco de uma lagoa da Serra da Estrela? Pratica jogging nos jardins do palácio de Queluz? Quais as suas leituras: Popper, Hayek, Tocqueville, Aron, Grócio? Faz uma partidinha de golfe para desenjoar? Rodeia-se dos seus conselheiros e spin doctors? Foi fazer uma promessa a Celorico de Basto? Já consultou o Prof. Zandinga? Criou uma linha vermelha para o gabinete do PM? Grandes perguntas, para grandes respostas…
5. Alguém me contou que, no início deste ano, se dedicou a fazer o balanço amoroso do ano anterior. Que é, tanto quanto julguei saber, bastante modesto: três tampas, dois coices e um testo. Enfim, o meu amigo, tal como eu, um autêntico pinga amor incompreendido. Ocorreu-me, na ocasião, que este notável desfecho evoca a parte final do célebre monólogo de Jacques, em “As you like it” (acto IV, cena I): “mas é a minha peculiar melancolia composta por elementos diversos, quintessência de várias substâncias, e mais precisamente de tantas experiências de viagens durante as quais esse perpétuo ruminar me fez cair numa tristeza plena de graça”. Ou seja, diante da matéria das paixões em desordem, misturadas ao sabor do acaso, cabe-nos encontrar o que nos permite contemplar o nosso próprio drama como visto de fora. Dissolvê-lo em melancolia, que é a tristeza que se torna leve. Mas sobretudo, retirar à comédia que sobra o seu peso corporal. E assim inventar a ironia. A consistência rarefeita.
Por: António Godinho Gil
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia



