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Auditoria aponta para 150 milhões de passivo na Câmara da Covilhã

Atual presidente Vítor Pereira considera valor «colossal» e «astronómico», Carlos Pinto desmente resultados e contrapõe com dívida de 68,3 milhões

A 30 de setembro de 2013, um dia depois das eleições autárquicas, a Câmara da Covilhã tinha, de acordo com o atual presidente do executivo, citando as conclusões de uma auditoria externa, uma dívida global superior a 150 milhões de euros. O relatório elaborado pela KPMG foi entregue aos restantes vereadores na passada sexta-feira e os valores apresentados são contestados pelo anterior presidente do município, bem como pelo MAC – Movimento Acreditar Covilhã.

O atual autarca Vítor Pereira considera que o município apresenta um «passivo financeiro colossal» e uma «dívida astronómica», indicando que o relatório da auditoria mostra «com clareza» que o passivo do município», à data das eleições, era de cerca de 126,5 milhões de euros. A este valor, acresce um «conjunto de outras responsabilidades, identificadas e não assumidas contabilisticamente», que perfazem um total aproximado de 142,5 milhões de euros. Em causa, de acordo com o edil socialista, estão questões como uma indemnização reclamada pela ParqC num valor superior a 10 milhões de euros, acrescida de juros de aproximadamente dois milhões, ou a dissolução da Sociedade de Reabilitação Urbana – NovaCovilhã num valor de 2,4 milhões. A este montante, «que já de si é assustador», Vítor Pereira frisa que acresce ainda as dívidas das empresas municipais, nomeadamente «a quota-parte de responsabilidade na dívida da ADC que ascende a 7,6 milhões e no caso da Parkurbis, SA que totaliza 1,6 milhões». Deste modo, «considerando estes valores e tudo somado temos um passivo global superior a 150 milhões de euros», garante o autarca que indica que do valor apurado, há 68 milhões que «correspondem a dívida de operações orçamentais cujo pagamento condiciona em muito a capacidade atual e futura de investimento do município e até cumprimento das despesas correntes operacionais normais».

O presidente do município considera os números «arrasadores e arrebatadores», denunciando ainda, que da análise das informações que constam do relatório, conclui-se que «em muitas situações foram tomadas pelo anterior executivo más opções de gestão que revelam uma enorme falta de visão estratégica de desenvolvimento do concelho». O autarca revelou também que, «infelizmente, passados 11 meses da tomada de posse, não passa uma semana sem que me chegue ao conhecimento mais uma situação estranha e de difícil resolução», assegurando que «temos respondido a esta situação de emergência com um trabalho árduo, envolvendo todos os colaboradores do município, que tem resultado num esforço de estabilização e contenção que fizemos nestes 11 meses e que já nos permitiu reduzir a dívida em oito milhões de euros, cortando nos desperdícios, racionalizando recursos e otimizando potencial». «Se não o tivéssemos feito, já teríamos entrado em rutura financeira. Já estaríamos acima do rácio de 300 por cento de dívida, o que nos obrigaria a tomar decisões ainda mais difíceis para a vida dos munícipes», referiu, aludindo ao facto de autarquia querer evitar «a todo o custo» o recurso ao Fundo de Apoio Municipal.

O autarca assumiu ainda não estar «surpreendido» com as conclusões do documento, que, reiterou, confirmam uma situação para a qual foi alertando enquanto vereador da oposição: «Tenho responsabilidade política no concelho há vários anos e há muito tempo que vinha alertando para o facto de a Câmara já ter ultrapassado os limites máximos de endividamento. Infelizmente, agora fica demonstrado que eu tinha razão», reforçou, prometendo que tudo fará «para que a Covilhã regresse à sua condição de cidade economicamente estável, com qualidade de vida e um apoio social relevante».

MAC espera que tenha acabado «período de nojo do PS»

Em comunicado enviado às redações, o MAC – Movimento Acreditar Covilhã, liderado por Pedro Farromba, ex-vice-presidente de Carlos Pinto, considera haver «manifestas e absurdas discrepâncias entre os números propalados» por Vítor Pereira «e os que constam do documento» apresentado pela empresa de auditoria: «Presumimos que neste PS e neste executivo camarário estejam confundidos num calendário eleitoral que já acabou, e onde tudo se prometeu, com o ainda prematuro tempo de pré campanha para as próximas eleições, onde de tudo se dirá para desculpar a falta de obra, de desenvolvimento e, acima de tudo, de estratégia e rumo para a Covilhã». O movimento considera que os eleitos pelo PS foram para a Câmara para «ajustar contas com o passado, resolver algum traumas adquiridos e, finalmente, fazerem o que nunca tiveram capacidade de fazer enquanto vereadores na oposição». De resto, o MAC «espera, a bem da Covilhã, que finalmente tenha acabado o período de nojo do PS, e que o seu executivo se convença, verdadeiramente, que os covilhanenses o elegeram para fazer mais e melhor, pelo que, exigimos que se digne começar a governar e a fazer o melhor para todos os que ainda fazem mover e acreditar a Covilhã».

Valores da auditoria são uma «palhaçada» para Carlos Pinto

«O sr. Pereira não passa de alguém com mais ambição que categoria política, com mais pesporrência vaidosa que nível institucional, com mais conversa oca que ideias para o concelho».

Carlos Pinto, ex-presidente na Câmara da Covilhã não poupa o seu sucessor. Num comunicado enviado a O INTERIOR, o antigo autarca considera que a «razão» para Vítor Pereira «gastar 100 mil euros» numa auditoria foi que «precisava de uma qualquer desculpa para a sua completa ignorância do que é governar um concelho, enquanto ao mesmo tempo, gostava de encontrar razões para “julgar” o anterior presidente da Câmara». Nesse sentido, Carlos Pinto garante que o valor de 126,5 milhões de euros «não passa de um embuste, uma palhaçada», revelando que a 30 de setembro do ano passado, segundo a última comunicação feita pelos serviços municipais à DGAL – Direção-Geral de Autarquias Locais, a dívida da autarquia era de 68,3 milhões. O antigo edil social-democrata, impedido de se recandidatar em 2013 por ter atingido o limite de três mandatos sucessivos, sustenta que «temos de um lado as contas “marteladas” do sr. Pereira, da sua “auditoria”, 126,5 milhões de euros, e do outro as contas dos serviços municipais, validadas pelos funcionários municipais e pelo ROC – Revisor Oficial de Contas» no valor de 68,3 milhões de euros.

Sempre ao ataque, o antigo autarca considera que o atual presidente recorreu a «esta falsidade» porque os números «verdadeiros e oficiais não preenchiam a possibilidade de chamar “astronómica” à dívida». Carlos Pinto defende que «qualquer espírito mediano pensaria duas vezes se, ao lançar estes números falsos, não estava a prejudicar o próprio município e a boa credibilidade que advém de uma administração que não tem duas contabilidades e números de dívida diferenciados». Constata ainda que «qualquer responsável autárquico que chegasse a uma Câmara e deparasse com uma dívida tão diferente da avalizada pelo ROC, a primeira coisa a fazer era comunicar este facto ao Ministério Público e às autoridades Inspetivas», sustentando que Vítor Pereira não o fez «porque sabe da palhaçada que montou». Para o futuro, também deixou uma mensagem: «Pela minha parte e a partir daqui, não haverá mais silêncios. Até porque fica muito por dizer e irá ser dito», assegurou o ex-presidente da edilidade covilhanense.

Ricardo Cordeiro Vítor Pereira, à direita, acusa o anterior executivo de ter tomado «más opções de gestão»

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