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Turismo Científico – revisitado

Mitocôndrias e Quasares

Durante as Comemorações do 10 de junho na Guarda, o Presidente da República fez uma breve referência a uma mais valia que a cidade dispõe e que deveria ser aproveitada – o ar. Referiu mesmo o exemplo de uma conversa que teve numa viagem recente à China, onde um dos motivos pelos quais a população local gostava de visitar Portugal era pela excelente qualidade do ar. Passados dois meses sobre esta referência presidencial gostaria de regressar novamente ao tema.

O ar tem sido um conceito relativamente recorrente no política local desde que. em 2004, a cidade foi classificada como “Cidade Bioclimática Ibérica”. Têm ocorrido algumas iniciativas (ainda assim escassas, a meu ver) para valorizar esta classificação, existindo mesmo um protocolo de cooperação entre várias entidades locais e regionais para promover e rentabilizar o ar. A par deste protocolo também podemos encontrar um projeto de criação de um futuro centro de investigação e monitorização da Saúde e Ambiente (Boletim Municipal, nº10, março de 2011). Esta unidade de investigação é apresentada como um dos vetores de desenvolvimento da cidade, e numa perspetiva mais alargada, da região, quer a nível científico/tecnológico quer a nível turístico.

Seguindo esta mesma linha de pensamento sobre a importância do ar como vetor de desenvolvimento regresso a uma ideia que me é cara e que venho defendendo ao longo destes últimos anos – a criação de um Centro de Ciência na Guarda!

O conhecimento científico e tecnológico é, hoje, consensualmente, apontado como um dos principais pilares das dinâmicas de desenvolvimento económico, social e cultural das sociedades contemporâneas. Neste sentido, a influência social da ciência propagou-se às diferentes formas de pensar, disposições cognitivas e orientações da ação da vida quotidiana das sociedades de tal modo que, nas últimas duas décadas, assistiu-se ao incremento de debates acerca de temas científicos e tecnológicos na sociedade. O cidadão necessita de participar ativamente na discussão destes temas, precisa de entender as grandes questões que se põem à ciência na época contemporânea sendo, deste modo, importante alargar à população em geral, ou pelo menos a segmentos tão vastos quanto possível, a apreensão de aspetos fundamentais inerentes à ciência. A importância de promover a participação do cidadão na ciência apresenta duas dimensões: a primeira associada ao papel da ciência, enquanto dispositivo cognitivo, retórico e comunitário de produção de estratégias de sobrevivência na relação homem/natureza; a segunda, como mecanismo dos governos para legitimar decisões políticas, relacionadas com a ciência e a tecnologia, através da responsabilização dos cidadãos nas definições das estratégias a desenvolver.

Esta é a tese do relatório da The Royal Society of London que defende que «uma melhor compreensão da ciência pelo público pode constituir um elemento determinante para a promoção da prosperidade nacional, elevação da qualidade da decisão pública e privada e enriquecimento da vida do indivíduo» (The Royal Society of London, 1985). É neste contexto que, nas últimas duas décadas, se tem reconhecido a importância de aumentar a proporção de cidadãos cientificamente literados para participarem no debate público sobre ciência e tecnologia, surgindo deste modo o conceito de Literacia Científica. A Literacia Científica tem sido marcada pela volatilidade desde que surgiu no final da década 50 do século passado, sendo alvo de interpretações e reinterpretações. Inicialmente caracterizada de forma empírica como um objeto pessoal que permite compreender: a inter relação entre a ciência e a sociedade; a dimensão ética dos cientistas no desenvolvimento do seu trabalho; a natureza da ciência; os conceitos básicos de ciência; diferença entre ciência e tecnologia e a inter relação entre a Ciência e Humanidade. O conceito de literacia científica pode ser encarado de uma forma empírica como a capacidade do indivíduo conseguir ler e escrever sobre ciência e tecnologia. Esta visão empírica foi sendo substituída por uma visão mais próxima da que defende que a literacia científica está relacionada com o que o público deve saber sobre ciência o que, usualmente, implica a compreensão da natureza, objetivos e limitações da ciência associada à compreensão das mais importantes ideias científicas. Deste modo e como defende Thomas e Kindo a comunicação de ciência vai «ajudar a criar pontes entre o saber do senso comum das diferentes culturas, e o novo conhecimento científico internacionalizado».

Esta minha argumentação mostra a importância da promoção da ciência, pelo que julgo que é possível criar um polo de divulgação de ciência de modo a aumentar a dinâmica cultural de ciência na cidade e na região que tenha como tema central o ar. Esta iniciativa seria pioneira na região portuguesa e espanhola, senão vejamos: os centros de ciência viva mais próximas da Guarda, em Portugal, são Coimbra, Aveiro, Proença-a-Nova e Vila Real, a abrir proximamente. Em Espanha, o mais próximo que existe situa-se em Valladolid. Neste sentido, um centro de ciência poderia servir a Guarda, Covilhã e Viseu, e mesmo a região espanhola próxima da fronteira, com a qual estamos cada vez mais ligados por projetos transfronteiriços.

A infraestrutura onde iria funcionar o centro poderia ser uma remodelação de um espaço já existente, uma vez que existem alguns locais degradados na cidade que poderiam ser aproveitados. Mas a questão principal não se centra no projeto, mas sim na capacidade de mobilização para uma aventura destas, na capacidade de seleção das pessoas certas para os lugares certos, na capacidade de inovar e arriscar, na capacidade de definir novas fronteiras para a cultura, na capacidade de decisão…

Por: António Costa

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