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O inconseguimento inconseguido!

Pleonasmo ou talvez não, por hábito apreendemos que apenas os seres vivos têm vida. No entanto, poderemos dizer que as massas têm alma, que as sociedade têm vitalidade e que as línguas são vivas. E são. Exemplo disso são termos que recentemente entraram no quotidiano do léxico português, falado de um e de outro lado do Atlântico, como sejam “presidenta” e “inconseguimento”. Fruto da evolução tecnológica, poucas pessoas haverá que não tenham ouvido ultimamente tais palavras.

Abstendo-nos nós de embarcar para o lado de lá, e detendo-nos neste lado do oceano e, simultaneamente, deste lado da serra, foquemos a nossa atenção no inconseguimento – e que inconseguimento inconseguido!

Se é verdade que não podemos ficar agarrados à história, porque ela não volta (apenas se poderá repetir), a história tem o mérito de nos ajudar a compreender o presente e a projetar o futuro. É nesse sentido que vamos fazer o exercício de a revisitar. Num passado não muito longínquo a Guarda respirava vitalidade no que respeita à iniciativa privada, com gente empreendedora e decidida a arriscar. Dessa forma distanciava-se de muitos outros lugares e lugarejos, tinha aquilo que os outros não almejavam sequer: um banco local, o Montepio Egitaniense, a única rádio local do país, a Rádio Altitude, uma industria têxtil com vitalidade e com destaque.

Gente pioneira, que depois partiu, fez chegar cedo a estas paragens a eletricidade e as comunicações. Refiro-me aos antepassados da família Balsemão e a muitos outros, antes e depois: dos Patrícios aos Almeidas, ou dos Gião aos Nunes, passando pelos Tavares, pelos Morais e pelos Silvas e tantos outros. Mas quase tudo foi e pouco resta. A iniciativa empresarial produtiva está reduzida a muito pouco e a Guarda é hoje, essencialmente, uma cidade de serviços com um pequeno “cluster” no ramo automóvel e uma minúscula indústria têxtil.

Uma justificação comum, e sempre usada, para justificar esta letargia será a falta de oportunidades. Outra justificação é a da falta de dimensão. E há uma justificação, aliás racional, de que os inconformistas rumaram a outras paragens e que uma boa parte de massa crítica e produtiva saiu. Nenhuma delas de “per si” justifica o que se passa, todas quase justificarão tudo.

Mas, mais importante do que encontrar uma justificação, importa compreender razões e motivos para o que se passou. Para se ser justo ter-se-á de dizer que a maioria do tecido empresarial parou há décadas no tempo, acomodou-se, teve apenas ambição pelo dinheiro imediato e uma enorme falta de visão estratégica.

Perante as adversidades que foram surgindo foram vacilando – e não há desculpas ou perdão que o justifiquem. Outros, noutros lados, souberam transformar as adversidades em oportunidades. Ponham-se os olhos no exemplo do têxtil no Vale do Ave ou do calçado em várias zonas do Norte? São indústrias que se recriaram e estão, hoje, num grande momento de pujança e de afirmação internacional.

Porque é que os empresários e empreendedores da Guarda não fizeram o mesmo em vez de ficarem à lareira a assar morcelas? Porque foram incapazes, com as condições ao dispor, de fazer melhor do que faziam. Ficaram aquém das oportunidades que lhes foram oferecidas mesmo quando havia, há poucos anos, dinheiro com fartura, taxas de juros baixíssimas e toda a Europa tinha dinheiro para comprar os nossos produtos.

As sociedades e as comunidades, realidade da qual a Guarda não se pode auto-excluir, têm de evoluir por si. A ambição tem de ser acompanhada pela visão de futuro. Esperar que os outros façam não é seguramente solução.

Façamos todos, portanto. Avancemos, pois só desta forma passaremos ao conseguimento conseguido. Ao sucesso.

Por: Acácio Pereira

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