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Olhares de Devoção

Opinião – Ovo de Colombo

Há muitas razões para visitar o Museu da Guarda. Três dessas razões são as pinturas da “Anunciação”, da “Nossa Senhora da Conceição” e de “Santa Teresa de Ávila”, datadas do séc. XVII – as duas primeiras portuguesas e a terceira andaluza.

São várias as caraterísticas comuns a estas três peças, explicadas sobretudo pelo período cronológico em que foram realizadas.

Podemos falar de execuções de cariz regionalista e popular, pouco eruditas (apesar de a “Nossa Senhora da Conceição” ter sido considerada, pelo historiador Victor Serrão, como de feitura lisboeta, nomeadamente do círculo do conhecido pintor protobarroco André Reinoso), mas que apresentam, ainda assim e dentro desta estética pouco erudita, um desenho e um cromatismo intensos, que também podemos ver, por exemplo, nas conhecidas obras de Josefa d’Óbidos. Tal como no trabalho de Josefa, nestas três pinturas podemos reconhecer fisionomias estereotipadas, algo ingénuas, percetíveis em rostos bochechudos, de narizes alongados, lábios e queixo redondos e olhos protuberantes. São fisionomias comuns a uma determinada sensibilidade também reconhecível em muita da escultura de madeira policromada que encontramos por todo o país, executada entre os designados períodos Maneirista, Protobarroco e Barroco. Trata-se de uma imaginária que revela o “periferismo” do país, numa altura em que muito se produziu à conta de um Devocionismo católico renovado e de uma necessidade de catequizar os crentes.

Após estas notas, quero chamar apenas a atenção dos leitores para a face destas personagens femininas, as quais olham para cima com um mesmo olhar de devoção. Talvez com o mesmo olhar extasiado com que os crentes observavam estas imagens no século XVII. São olhares de entrega a um destino de fé. Uma fé central na vida das gentes desse tempo. Ou, se assim o desejarem, talvez este olhar de êxtase seja o mesmo com que hoje em dia – tempos conturbados de, dizem alguns, pouca fé – alguns de nós observam uma obra de arte…

Diana Rafaela Pereira*

*Mestranda de História da Arte Portuguesa na Universidade do Porto

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