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25 de Abril

Editorial

Em abril de 74, o Movimento das Forças Armadas, para lá das muitas divergências e diferenças de opinião, assumiu três premissas iniciadas pela letra “D”: Descolonizar, Desenvolver e Democratizar.

A ordem não era o mais importante, mas a verdade é que “descolonizar” era o principal propósito revolucionário dos “capitães de Abril”, fartos da guerra em África. Assim, e em poucos meses, acabou-se com o Portugal “ultramarino”, reconhecendo a independência às colónias – com grande atraso em relação à autodeterminação de outros povos colonizados por europeus. Descolonizar foi, obviamente, o mais “fácil” e rápido “D” a ser substanciado – ainda que com erros, sem delineação adequada, com irresponsabilidade no repatriamento de centenas de milhares de portugueses que, depois de espoliados de tudo, seriam os “retornados” mal integrados na pátria, naquele que foi um dos maiores movimentos migratórios da história da humanidade.

Desenvolver era a promessa majestática dos revolucionários, que, naturalmente, mesmo sem terem a noção do que queriam ou poderiam fazer em prol do desenvolvimento de um dos estados mais pobres e isolados da Europa, sabiam que tinham de ter no progresso e no bem-estar social a bandeira e a missão que mereceria o apoio popular. Se até ao verão quente de 75 as dúvidas sobre o regime e as opções governativas podiam pôr em causa a ambição de desenvolver o país, com a emergência da Democracia, Portugal conquistou definitivamente a grande metamorfose política e posteriormente iniciaram-se grandes transformações sociais e económicas. A pobreza e a miséria em que viviam a maioria dos portugueses foi drasticamente reduzida ao longo destes 40 anos de extraordinário desenvolvimento – quando olhamos para a triste realidade em que hoje o país está mergulhado é bom não esquecer de onde partimos: em 1974 Portugal era um país de pobres e analfabetos.

Por estranho e paradoxal que pareça, para o desenvolvimento do país houve um enorme contributo dos “retornados”, daqueles que regressaram de “mãos a abanar”, que foram “metidos” numa gigantesca ponte aérea entre Luanda, Nova Lisboa ou Maputo e Lisboa, com lágrimas e dúvidas, muitas vezes abandoados à sua sorte, e cuja integração na “metrópole” contribuiu para excecionais mutações sociais, culturais e económicas (outros, muitos, emigraram para os mais diversos destinos).

A palavra Democracia em 1974 significava um destino longínquo, tão distante que nem se pronunciava e muito menos se prenunciava. Mas foi com a Revolução que se abriu a porta à instauração do regime democrático. Foi graças à coragem e denodo dos que construíram a Revolução que hoje vivemos numa Democracia representativa, em que cada cidadão tem direitos, liberdades e garantias. Às conquistas políticas devemos sempre associar as conquistas sociais. Num tempo de dúvidas e dissabores, de impasse e sacrifícios, em que muitos viram as costas à política, em que tantos se insurgem contra os partidos e atacam os políticos, em que diminuímos as grandes conquistas e banalizamos valores como a liberdade, temos de estar atentos à deriva populista, à repressão da liberdade de expressão, ao vácuo das redes sociais, à opressão da imprensa, à tirania dos interesses e ao poder soberano do dinheiro. Comemorar 40 anos de Abril é celebrar o Portugal moderno e democrático, é celebrar a liberdade que nasceu num dia 25 em abril.

Luis Baptista-Martins

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