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«É difícil um empregador acreditar que um biomédico faz tudo aquilo a que se propõe pela sua formação»

Cara a Cara – Luís Crisóstomo

P – Que significado tem para si, enquanto biomédico formado na UBI, ser o primeiro presidente da Mesa da Assembleia Geral da ANCiB?

R – É uma grande honra e um orgulho. Envolvi-me logo nos primeiros passos da associação, em março de 2011, durante as IIªs Jornadas Nacionais de Ciências Biomédicas, realizadas na Covilhã, mas fui o único dos envolvidos inicialmente que chegou à fundação da ANCiB. Deste modo, olho para esta associação como o concretizar de um sonho antigo de todos os que ousaram pensá-la e uma promessa cumprida para com todos os biomédicos. Enquanto biomédico da UBI, o orgulho é maior pela história da ANCiB ficar ligada à universidade desde o seu esboço à sua efetiva consubstancialização.

P – A sede da Associação ficará temporária ou definitivamente na Covilhã?

R – A sede da ANCiB ficará definitivamente na Covilhã, a menos que isso seja alterado nos estatutos. No entanto, haverá delegações nas outras universidades públicas onde existe a licenciatura em Ciências Biomédicas: Aveiro e Algarve.

P – Quais são as grandes prioridades para o primeiro mandato?

R – O primeiro mandato terá grandes desafios. Desde logo, a nossa prioridade será funcionalizar a associação. Vamos começar com a divulgação. O site oficial está a ser desenvolvido, ficará disponível brevemente e as inscrições de sócios também serão abertas por essa altura. Procuraremos também criar as primeiras parcerias para que os sócios possam beneficiar de vantagens, ajudar na divulgação de eventos ou mesmo na partilha e anúncio de oportunidades de trabalho para os biomédicos. Outro objetivo será associarmo-nos à luta da classe científica em Portugal, pois atravessamos um período conturbado também para a nossa ciência devido aos cortes realizados e às alterações das políticas que regem a atividade científica, o que afeta muitos cientistas biomédicos e ameaça os futuros. Também será sempre prioritária a análise de casos que os colegas nos façam chegar e onde a ANCiB possa atuar. O nosso endereço eletrónico é geral@ancib.pt.

P – Quais são as principais áreas de atuação de um biomédico?

R – Um cientista biomédico define-se como um profissional científico com uma ampla valência de competências, de diferentes áreas da ciência, adaptado às modernas equipas de investigação multidisciplinares das Ciências da Saúde. Isto significa que, em primeiro lugar, os cientistas biomédicos são investigadores que fazem o elo de ligação entre engenheiros, médicos, farmacêuticos e bioquímicos na busca por inovadoras formas de tratamento e diagnóstico. Mas os Biomédicos não estão limitados à investigação. Podem atuar também na indústria farmacêutica, na cosmética, na biotecnologia, na indústria alimentar ou mesmo desenvolver dispositivos médicos e próteses. Há ainda a hipótese de serem empreendedores e criarem o seu próprio produto.

P – Quantos biomédicos há atualmente em Portugal?

R – Neste momento há entre 200 e 300 cientistas biomédicos graduados, que completaram a licenciatura em Ciências Biomédicas e um mestrado.

P – Qual tem sido o ritmo da procura nesta área de formação?

R – A procura tem vindo a crescer de ano para ano, como é visível pela evolução das médias do último colocado. Apesar destas terem descido ligeiramente no último concurso de acesso ao ensino superior, na primeira fase a nossa licenciatura obteve a média de entrada mais alta da Universidade de Aveiro (168,0) e a segunda mais alta da UBI (158,4) e da Universidade do Algarve (131,7).

P – Como perspetiva a situação profissional dos formados em Ciências Biomédicas em Portugal?

R – As políticas de austeridade atingiram este ano fortemente a comunidade científica portuguesa, na qual grande parte dos cientistas biomédicos se engloba. Até agora, os dados mostram que os formados em Ciências Biomédicas, de qualquer uma das universidades portuguesas, têm tido empregabilidade próxima dos 100 por cento. Porém, as novas regras de atribuição de bolsas por parte da FCT colocam esta realidade em causa, uma vez que muitos biomédicos seguem para pós-graduações ou são absorvidos por projetos de investigação.

P – Quais são as principais preocupações dos biomédicos portugueses?

R – As bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento são uma das maiores preocupações dos biomédicos portugueses. A ausência de financiamento coloca estes profissionais sob uma pressão que os desviará da carreira científica, e tendo sido esse o objetivo principal dos fundos aplicados pelo Estado na sua formação, o país dificilmente terá o retorno desse investimento. Esse retorno será captado por outros países que têm uma grande capacidade de financiamento científico. Porém, os que optarem por não seguir a carreira científica e ficar por Portugal têm uma enorme barreira. O tecido empresarial não está preparado para captar mão-de-obra altamente qualificada. A percentagem de orçamento para desenvolvimento das empresas nacionais está bem abaixo da média europeia. Além disso, existe um problema específico com a classe dos cientistas biomédicos – a sua ampla formação, curiosamente a sua maior força. É difícil para um empregador acreditar que um biomédico faz tudo aquilo a que se propõe pela sua formação, ou seja, na altura de concorrer a um lugar, as empresas tendem a escolher alguém formado numa área específica. Este problema advém também do facto de não estar claramente estipulado quais as competências e as funções de um cientista biomédico. Para quem segue a via científica, o problema é mais transversal e prende-se com a instabilidade pessoal. As bolsas têm uma duração muito limitada, vão no máximo até quatro anos, pelo que é impossível planear a vida pessoal, fixar-se e criar família. A duração das bolsas está assim estruturada para permitir a mobilidade dos investigadores, o que é positivo, porém é essencial criar mecanismos, mesmo a nível europeu, que permitam a fixação definitiva de investigadores a partir de dada altura.

P – Curiosamente, em 2014 a Faculdade de Ciências da Saúde da UBI passou a albergar, numa primeira fase, a sede da Associação Nacional de Estudantes de Medicina e, agora, a ANCiB. Na sua opinião, quais serão as mais-valias que daí poderão advir para uma região do interior, ainda preterida por muitos estudantes?

R – Uma é desde logo a visibilidade. É importante mostrar que há vida no interior e que as instituições de ensino superior desta região têm capacidade para acolher projetos nacionais, tal como as congéneres do litoral. Também eu sou natural do litoral, da região Oeste, e sei que atualmente a ideia que se tem lá do interior é a de uma realidade totalmente diferente, refletindo um país a duas velocidades. Embora o fator da interioridade não tenha pesado na nossa decisão de sediar a ANCiB na Covilhã e na UBI, penso que é de enaltecer a escolha para contrariar a tendência desertificadora do interior.

Luís Crisóstomo

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