Arquivo

Afinal havia outro…

Editorial

1. Em política, o que é verdade hoje pode não o ser amanhã… esta afirmação tantas vezes repetida é ainda mais efetiva quando se fala do PSD da Guarda e, no caso presente, no ziguezagueante processo de escolha e nomeação do candidato social-democrata à Câmara da Guarda.

Há uma semana, em reunião da Distrital do PSD, foi lançado o repto a Júlio Sarmento para assumir a candidatura. O presidente da distrital aceitou impondo uma única condição: convidar para segundo Manuel Rodrigues, informando que se o presidente da concelhia não aceitasse convidaria João Prata, vice de Sarmento na Distrital e, portanto, presente na reunião.

Até quarta-feira Sarmento foi o candidato. E quando se preparava para apresentar o seu próprio nome, e apenas o seu nome, a Moreira da Silva, coordenador nacional do PSD, recebeu um telefonema de Álvaro Amaro. O ainda presidente da Câmara de Gouveia recordou a Sarmento que tinha pedido um período de reflexão sobre o assunto e esse período não se tinha esgotado, logo, não «admitia» que Sarmento o excluísse de um processo para o qual tinha sido convidado… E, assim, o presidente da distrital voltava a fazer uma pirueta de 360 graus, esquecendo o compromisso assumido com os parceiros de direção e vergando-se perante a imposição de Amaro.

Talvez para Sarmento tenha sido um alívio quando, sexta-feira, num jantar-debate sobre a comunidade intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela, Amaro surpreendeu os presentes ao defender a Guarda como capital da nova comunidade – não era o “dinossauro” em fuga quem falava, era o candidato a tomar a iniciativa e a marcar o terreno. E, enquanto a Sarmento faltava o fôlego, sábado, na reunião entre os dois, Amaro não deixou margem para dúvidas – tinha vontade, apoios (desconhecidos ou dignos de referência) e estratégia delineada (falta é saber qual).

Para já, Álvaro Amaro conseguiu a presença de Ana Manso na apresentação da candidatura, o que pode significar alguma aproximação aos “rivais” internos, mas não significará seguramente um apoio alargado da concelhia (que manifestou publicamente que não aceitaria, nem apoiaria um candidato vindo de fora). Falta agora saber se Manuel Rodrigues se deixa convencer pela solidariedade partidária ou opta por escolher outros caminhos, inclusive a possibilidade de assumir uma candidatura independente ou mesmo juntar-se a Virgílio Bento, que continua a acreditar ser melhor opção do que José Igreja no campo socialista, e assim poderem conquistar votos ao centro.

O “dinossauro” está de regresso, mas falta saber até quando, pois a “Revolução Branca” já vem aí com o pedido de uma providência cautelar para impedir a candidatura de Amaro. E, depois, mesmo que a decisão seja afrontar o Tribunal, falta perceber se Amaro terá capacidade para atrair nomes de prestígio para o apoiar e dar dimensão à candidatura – para já não se percebeu capacidade de empolgar ou de envolver mais do que os respetivos partidários.

2. Passos Coelho respondeu ao Tribunal Constitucional da pior forma que um primeiro-ministro pode fazer: a atacar o “guardião” da Lei Fundamental e que, em última instância, é a grande reserva de qualquer Estado de Direito.

O “chumbo” do Orçamento estava previsto e se Passos Coelho não admitia essa possibilidade, devia ter-se demitido ao ser confrontado com ela. Ao não o fazer, devia ter optado por outro caminho e mudar o rumo das políticas de austeridade. Optou pelo ataque frontal à fiscalização da Constituição e com isso perdeu a pouca credibilidade que ainda lhe restava. Podemos não vislumbrar alternativas, mas o Governo tinha obrigação de as ter. E mesmo sendo verdade que as opções irão fazer sangue e lágrimas, não podemos admitir uma democracia à deriva, sem respeito pelas regras elementares de um Estado de Direito. Já basta o que basta!

3. O IPG contratou para uma conferência Miguel Gonçalves, um licenciado «especialista» em empreendedorismo. E ao que parece há um grande entusiasmo entre dirigentes, professores e provavelmente alunos do Politécnico com a vinda do “empreendedor”. É inacreditável como uma instituição que tem feito um esforço de credibilização (bem necessário), e que devia seguir o seu caminho evidenciando qualidade técnica e científica, contrata um hilariante vendedor de facilitismo. Compreende-se a tentação, pois os mais jovens são cada vez mais atraídos pelo vale-tudo e por chamamentos superficiais, mas que o Politécnico não se sinta obrigado a “nivelar por cima” é embaraçoso e incompreensível. Ter sucesso a vender pipocas não é vergonha nenhuma, mas que um vendedor de banha-da-cobra ande a ser pago por estabelecimentos de ensino superior (público) para vender a ilusão de que tudo é fácil é a negação das funções de uma academia onde o esforço e o trabalho devem ser a base e o sustentáculo do sucesso.

Luis Baptista-Martins

Sobre o autor

Deixe comentário