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Pluvioso

1. Quem andou pelas redes sociais na semana passada, no rescaldo do nevão que cobriu a Guarda durante dois dias, certamente se deparou com imensas fotografias alusivas ao tema. Compreende-se. Afinal, a fotogenia da neve é inesgotável e um bom retrato desse “imenso cortejo branco das aves que buscam o chão da terra” (citação de memória de um poema meu) fica bem em qualquer moldura. Curioso é ninguém ter comentado a intervenção desastrada da Protecção Civil, como já vem sendo hábito. Logo à partida, não se compreende porque é que as escolas da cidade fecharam durante dois dias. Porquê? O transporte escolar não tinha condições para funcionar? Ora, sabe-se que, em muitos casos, não foi isso que se passou. Uma vez que, na manhã de terça-feira, os autocarros receberam indicações para voltar atrás quando já tinham praticamente concluído o trajecto, sem problemas de maior. Os professores que habitam fora da cidade não podiam circular? Muito bem, nesse caso, decretava-se uma espécie de tolerância de ponto para quem não pudesse responder à chamada. Assim ninguém se sentiria lesado. Com o fecho das escolas criaram-se mais problemas do que aqueles que supostamente se iriam resolver: menos dois dias de aulas, com o que tal acarreta em termos de aproveitamento; encargos suplementares para os pais, que especialmente no caso dos 1º e 2º ciclos, tiveram que faltar ao trabalho para tomar conta dos filhos, etc. Ora, seguindo esta lógica alarmista e imprudente que inspirou a decisão, os países do Centro e Norte da Europa ficariam privados de aulas durante um terço do ano!… Por outro lado, durante dois dias viram-se na rua os agentes da protecção Civil.. E mostraram-se como? Basicamente a despejar areia e sal na via pública, passear de Jeep e barrar duas ou três ruas mais arriscadas para a circulação. Todavia, ao invés de concentrarem os seus esforços nas vias radiais de acesso ao centro e ao Hospital, deixando aquele transitável para a circulação pedestre, (incluindo os que quisessem desfrutar do cenário), “limparam” primeiro o centro, actuando depois em ondas concêntricas. Tanto assim é que, ao princípio da noite, era impossível circular em algumas vias de acesso à cidade, nomeadamente as que ligam à VICEG. Já agora, que é feito do limpa-neves, tema que tanto furor desencadeou há dois anos, pela mão do então Governador-Civil? Afinal não foi anunciado com pompa e circunstância pelas autoridades e imprensa local? Tanto quanto julgo saber, está avariado desde que chegou. Será anedota?

2. Por razões distintas, goraram-se as candidaturas de Manuel Baptista Rodrigues e Virgílio Bento à Câmara da Guarda, respectivamente pelo PSD e pelo PS. José Igreja e Sarmento, Prata ou Amaro serão os senhores que se seguem. Mais à frente, quando as listas estiverem concluídas e forem apresentadas, farei o meu comentário. Para já, interessa reter o seguinte. 1º O PS local é uma realidade fragmentada, à beira da implosão. Um corpo povoado de projectos pessoais inconciliáveis. Como viveu sempre encostado ao poder, está a revelar ser incapaz de se reinventar, de emergir da teia que criou ao longo de 35 anos, de apresentar um projecto sustentável e descomplexado para a cidade. 2º A liderança distrital dos socialistas é o que se sabe: um vórtice paroquial e imobilista. 3º O PSD vai acabar por apresentar um dinossauro de circunstância, ficando a ideia que só o faz na Guarda porque completou o número de mandatos permitidos por lei noutra autarquia. 4º O PSD abdicou de ser oposição porque espera que o poder lhe caia aos pés. 5º Os movimentos criados no Facebook que propugnam pelas candidaturas “independentes” de Bento e Rodrigues funcionam como pouco mais do que uma vitória moral, sob a forma de espinho cravado nos seus opositores. Inócuo mas incomodativo. E como se adquire a qualidade de “independente”, depois de uma vida política decalcada dos respectivos partidos? Espero que Bento e Rodrigues se distanciem convenientemente destas ondas de fundo aclamativas. Onde sobeja a táctica e impera o descaramento. 6º Será desta que vai aparecer na Guarda uma candidatura realmente independente? Temo que a pergunta seja meramente retórica. Mas enquanto há sonho…

Eis o que poderia ser um ódio de estimação quase perfeito: o arquétipo generosamente esculpido do espertalhaço, que arrecadou uns fundos na formação no “bom tempo”, o suburbano da roulotte na Caparica, o tal da sardinha assada, o que fala alto na tasca da sua agremiação mas baixa as orelhinhas com o “Senhor Doutor”, o tal que montou uma empresa de sondagens, depois de alguém lhe ter explicado que não eram furos artesianos, o que já mexeu no “meio” sindical, cujo patois vai soletrando, à mistura com um arremedo de discurso tecnocrático que copiou dos “empresários”, os quais sempre invejou secretamente, capataz inconfessado, o mesmo que enche a boca com palavras como chairman e cluster e que associa a bebidas requintadas, o tal que tem um primo no Ministério, o tal que sabe umas coisitas de relações de trabalho e pequenas manigâncias reivindicativas, que agitou umas bandeirinhas na era do aquário, o bacano que se vai safando, que manda uns bitaites escleróticos, o tal que, mal abre a boca, não consegue esconder uma langue de bois do tamanho das suas gravatas… SIM, ecce homo!

Por: António Godinho Gil

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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